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domingo, 5 de julho de 2015

A profissão que me escolheu


Estou naquela árdua tarefa de corrigir provas, lançar notas, fechar diários, preencher planilhas virtuais. Uma loucura que só sabe quem é professor (maridos e esposas desses profissionais desconfiam o que seja, pois costumam acompanhar boa parte).
É um período sempre muito cansativo ao final de cada bimestre e que chega a ser estressante quando é ao fim do semestre letivo. Parece que brota material e que isso não acabará nunca.
Obviamente, termina. Como um ciclo, tem seu começo, início e fim que já direciona para novo início e assim sucessivamente. E confesso que esse ciclo me agrada e me causa certo encanto. Talvez por isso seja professora. Não dá para ser, se não for possível descobrir algum encantamento nesse trabalho. Acho que anda faltando isso por aí... Mas esse é assunto para outro texto, outro dia.
Não vou tratar aqui das questões governamentais e burocráticas que envolvem o sistema educacional. Neste momento, preciso falar de uma certa beleza de se chegar aos resultados do fim de um período letivo. Repito: BELEZA. Não enlouqueci, não. Enchi-me, mais uma vez (e sempre!), de esperança.
Adoro elaborar provas. Sinto-me sempre instigada intelectualmente a produzir algo que teste, em primeiro lugar, a mim mesma. Sim, porque preciso organizar um instrumento para avaliar meus alunos que esteja diretamente relacionado e adequado às aulas que ministrei. Ali, precisam estar contemplados os conteúdos que trabalhei, de acordo com o que foi exercitado. Mas ali deve haver também vida inteligente: desejo que no momento de realizar a prova cada estudante sinta-se também instigado a pensar novamente sobre tudo aquilo, buscando na memória as falas, as dúvidas, as trocas que aconteceram nos nossos encontros; que cada um tenha um esforço pessoal ao responder às questões para que, ao final, sinta-se satisfeito com seu próprio trabalho.
Por isso, tenho enorme dificuldade com bancos de questões. Pesquiso neles, sim; são úteis em certas ocasiões. Mas necessito de ter, ao elaborar uma prova, o mesmo desafio de criatividade que me acometeu ao planejar cada uma de minhas aulas. Não sei seguir receitas pedagógicas; até porque, se bem aprendi nos meus estudos em Pedagogia (na faculdade, e antes e depois dela) devo partir de determinados parâmetros, mas cada aula será única, porque singular é cada turma, com sujeitos distintos entre si e que necessitam, portanto, de um trabalho que os respeite em suas diferenças ao mesmo tempo que lhes assegure direitos iguais. Um desafio e tanto!
Depois, corrijo as provas com ansiedade. Quero ver se acertei ao cobrar tal coisa de tal modo. Como professora de Português, desejo ver se bem escolhi os textos e se elaborei questões adequadas. Se não foi boazinha. Se não foi mazinha. Busco o equilíbrio até mesmo na hora de elaborar minhas provas - sensatez e coerência.
Que tristeza diante de resultados ruins... Há muita dificuldade hoje nas escolas, sim. Nossas aulas concorrem com o “barulho do mundo”: excesso de estímulos visuais, auditivos, tecnológicos que roubam a atenção que crianças e adolescentes precisariam dar aos estudos. As famílias não estão em casa, como antigamente, e o acompanhamento à vida escolar dos filhos lhes escapa. Considero tudo isso ao planejar minhas aulas e me frustro quando tudo isso me vence. Porque, embora a nota seja do aluno, também me sinto um pouco derrotada. Para esses alunos, sempre procuro identificar o que eu, dentro das minhas limitações, ainda poderia fazer para ajudá-lo.
Que contentamento diante dos bons resultados! Olho para meu próprio trabalho e sinto satisfação por ter sucesso ao ensinar. Fico feliz de encontrar ainda quem se dedique e se empenhe no papel de aluno.
Mas, ALEGRIA mesmo, de verdade, não tem relação propriamente com essa ou aquela nota. Alegria eu sinto ao ver superação: descobrir algo a mais para se fazer por um aluno (e às vezes esse algo a mais não é didático, mas está no campo do afetivo; trata-se, às vezes, de descobrir o olhar ou o sorriso a oferecer àquela pessoa; mas pode ser pedagógico, sim, num outro modo de ensinar, de cobrar, de exigir) e perceber que está dando frutos compensa a tristeza sentida anteriormente. Se eu pudesse, a esses que se superam eu daria um presente. Os troféus e medalhas não deveriam ser para os primeiros lugares... Há muitas outras formas de se enxergar mérito!
E a alegria de admirar um aluno? Ler o que ele escreveu e pensar: “Que maravilha!... Isso está muito além do que ensinei.” Acho que a primeira vocação do professor precisa ser ensinar. Penso que não se ensina se se deixa de aprender. Reconheço em mim essa vocação e me empenho para continuar aprendendo – mesmo hoje, 25 anos depois de ter tido minha primeira turma. Mas, sem dúvida alguma, ver que alguém aprendeu aquilo que você ensinou e, ao construir o próprio conhecimento, supera a si mesmo e a você próprio é algo fantástico e renova todas as esperanças.

Gratidão à vida por essa profissão ter me escolhido!

5 comentários:

  1. Parabéns!!! Excelente texto, vale a leitura e reflexão!

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  2. É maravilhoso mesmo, Marcia. Principalmente quando percebemos que, mesmo em meio as "tempestades," alguma sementinha caiu e germinou e que nós fomos os responsáveis por isso.

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  3. Parabéns pelo texto Márcia!
    Fico feliz em saber do seu encantamento e entusiasmo pela profissão, profissão essa, que necessita de muita paixão mesmo, como todas as funções na área educacional! Precisamos dessa garra para desenvolver práticas libertadoras, para plantar sementes e resgatar sonhos, para fazer acreditar que é possível sim, que a vida é regida pela educação familiar e pela educação formal encontrada nas escolas da vida. Também sou realizada trabalhando na educação, satisfeita, e quando fazemos com convicção e prazer estamos desenvolvendo nosso papel na humanidade, nossa utilidade!

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