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terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Sobre Arte, Estética e Educação

“A arte existe porque a vida não basta.”
Ferreira Gullar

Sabe quando você vai ao dentista ou precisa fazer algum tipo de cirurgia e utiliza anestesia para não sentir dor? Pois é... na origem, a palavra ‘anestesia’ está relacionada à palavra ‘estética’, que vem do grego aesthesis e significa conhecimento sensorial ou sensibilidade. Quando estamos anestesiados significa que perdemos nossa capacidade de ter sensações. Fora desse estado, estamos prontos a “sentir” tudo o que há a nossa volta.
No século XVIII, a palavra estética foi adotada pelo filósofo alemão Alexander Baumgarten para nomear o estudo das obras de arte como criação da sensibilidade, tendo por finalidade o belo. Estética, então, tornou-se a área da filosofia que estuda racionalmente o belo - aquilo que desperta a emoção por meio da contemplação - e o sentimento que ele suscita nos homens.
Despertar o senso estético dos meus filhos é uma preocupação que tenho em sua educação. Acredito que esse aprendizado seja fundamental para desenvolver a sensibilidade, sentimento que considero tão escasso no mundo de hoje. Sensibilizar-se diante da vida, olhar o mundo ao redor com sensibilidade e se deixar tocar pela beleza (ou pela falta dela...).
“A arte existe porque a vida não basta.”, disse o poeta Ferreira Gullar. Para além da vida cotidana, contemplar o belo – objetivo principal da Arte – é fundamental para a vida humana. Na contemplação, tornarmo-nos sensíveis às expressões daquilo que o outro vê.
O que é considerado arte está relacionado ao “Manifesto das Sete Artes e Estética da Sétima Arte”, proposto pelo intelectual italiano Ricciotto Canudo, em 1912, que cria a seguinte listagem: Arquitetura; Escultura; Pintura; Música; Dança; Poesia; Cinema (posteriormente, foi incluída a Fotografia como 8ª Arte e no lugar de ‘Poesia’ optou-se por ‘Literatura’). Atualmente, há variações dessa listagem, incluindo outras expressões, mas há um consenso maior com relação a listagem apresentada, que costuma ser a mais comumente divulgada.
No currículo escolar, recentemente além de Arte foi incluída Música; didaticamente separadas, o trabalho pedagógico com ambas volta-se a um conhecimento intelectual da cultura construída pela humanidade ao longo de sua história e de um incentivo à produção expressiva espontânea dos estudantes. E, para além do estudo, objetiva-se o despertamento da consciência estética e o desenvolvimento da sensibilidade.
Foi na escola que ouvi pela primeira vez uma música de Chico Buarque. Isso foi em 1984, na 5ª série (que hoje se chama 6º ano do Ensino Fundamental), na aula de música da querida professora Elisete (com quem, felizmente, tenho contato ainda hoje, tendo sido – ‘voltas que a vida dá’ – sua professora recentemente) e a música era “A banda”.
Lembro-me de que estudávamos numa sala apertada, onde cabia um piano e todos os alunos ficávamos espremidos a volta dele. Foi a primeira vez que vi um instrumento desse de perto, pois não havia esse tipo de experiência na minha família e nem nos círculos que frequentávamos – escola, igreja, casa de amigos e de parentes.
Recordo-me do quanto essa vivência foi prazerosa: ver o instrumento musical, estar tão perto dele, acompanhar alguém tocando e produzindo tão maravilhoso som. Juntamente com “A banda”, a professora nos apresentou “Roda viva”, também de Chico Buarque. Nunca mais me esqueci daquelas letras e minha curiosidade por esse compositor foi profundamente aguçada – e de lá até hoje (30 anos depois!) – busquei conhecer e aprender a obra desse que é um dos meus compositores preferidos (em primeiro lugar, confesso...).
Mas a professora também nos ensinou “Águas de março”. Amante de música, porque meu pai foi um colecionador de vinis e eu conheci uma grande variedade de artistas durante minha infância e adolescência, aquele espaço da música “ao vivo” me encantou; a possibilidade de atentar para as letras e cantar em grupo me causavam enorme alegria.
Curiosamente, – olha a vida dando voltas outra vez! – no ano em que Chico Buarque completou 70 anos de idade (2014), meus filhos tiveram a oportunidade de, na escola, estudar sobre esse artista. Eles já eram ouvintes de sua música, que toca em nossa casa com frequência. Mas a experiência do estudo formal sobre o compositor proporcionou-lhes redescobri-lo e efetivamente admirá-lo.
Que delícia ouvir meus filhos cantarolarem “A banda” pelos corredores da casa, ao tomarem banho, inventando brincadeiras rítmicas e variações com essa música. Sei que eles não se esquecerão dessa vivência. E que ela ficará porque pedagogicamente o trabalho foi muito bem feito. Porém, acima disso, essa memória ficará registrada porque se trata de Arte com ‘A’ maiúsculo e através dela meus filhos – e todos os demais estudantes que tiveram essa oportunidade – puderam ter seu senso estético aguçado e sua sensibilidade provocada e estimulada.

Que essa seja apenas uma semente... E que seus bons frutos possam colhidos e degustados!

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