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terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Uma experiência inédita

No final de outubro de 2014, vivi uma experiência inédita: chegar bem perto de pessoas que têm uma vida social e economicamente bem diferente da minha.
Algo assim eu havia vivido, guardadas algumas diferenças, em 1992, quando trabalhei numa escola pública municipal na zona rural de Friburgo. Pelo modo como as crianças se vestiam, pelo que traziam consigo, pelo modo como falavam, eu percebia que era uma realidade bastante diferente da que eu tinha vivido na minha infância que, até aquele momento, eu considerava que havia sido pobre. Mas havia como ser muito mais pobre do que havia vivenciado.
Foi apenas um ano e eu não tive a oportunidade de conhecer as famílias nem as residências daquelas crianças. Em 1990, eu tivera experiência semelhante, trabalhando numa escola pública da rede estadual, na periferia da cidade.
No sábado foi diferente. A proposta era ir às casas dos estudantes de uma determinada escola pública, dando continuidade a um projeto que já estava em andamento, de um grupo heterogêneo que realiza algumas atividades sob o nome de “Mosaico”.
Embora seguindo o grupo pelo facebook, eu ainda não tinha podido participar de nada. Até o dia 25/10/14. Fui, sem saber bem o que encontraria. Preocupada com o que meus olhos poderiam ver. Não pensei, confesso, no que meus ouvidos poderiam ouvir.
Aqui já constato como temos medo do outro. E mais do que me relacionar com o outro, tememos ver o outro. O ditado popular talvez explique isso: “O que os olhos não veem, o coração não sente.”
Encontrei uma amiga de estudos e fizemos uma parceria na visita a duas famílias. E não vi nada demais. Ou, pelo menos, nada que me chocasse. Zona rural, embora a apenas 10min do centro de Conselheiro Paulino, com características típicas: ruas de chão batido, ausência de estabelecimentos comerciais (ou escassez), casas bem simples, pequenas lavouras.
A primeira casa que visitamos tinha pelos arredores plantações de flores, especialmente copos de leite e rosas. Linda imagem! Ambiente muito seco, também sofrendo a falta de chuvas que atinge a todos nesse momento. À volta, além das casas, da escola e das lavouras, nada. Nenhuma mercearia/bar/birosca/botequim/venda. Nada. Mas a família não sente falta de nada disso. Dois senhores – avós da menina estudante da escola (não a conhecemos, pois ela havia saído com o pai – que vivem há 27 anos na mesma casa, alugada, cuja renda é composta apenas pela aposentadoria dele, já que ela ainda está pagando os impostos para alcançar a sua talvez daqui a oito anos (mas ela já tem 70 anos de idade!...) dizem que estão felizes com os progressos recentes: há luz elétrica a 14 anos (!); agora o lixo tem lugar próprio para ser depositado (uma caçamba deixada semanalmente); uma vez ao mês vão ao supermercado no centro de Conselheiro, que entrega as compras em casa. 
“Então, vocês não sentem falta de nada? O que vocês gostariam que tivesse por aqui para ajudar ao bairro?”
“Nada, não, ta tudo bem.”
“E sua neta? Ela brinca? Como ela faz pra se divertir?”
“Ela tem uma bicicleta e anda no quintal. Brinca dentro de casa com os brinquedinhos dela. Nos finais de semana, sai para acompanhar o pai.”
E reclamamos tanto!... E necessitamos de tanto!... E tem gente que vive com tão pouco!... E eu não estou falando de pobreza, quando pensamos em pessoas passando fome e não tendo suas necessidades básicas atendidas. Não! Essa família não passa fome, tem saúde, escola, uma moradia (ainda que não seja sua).
Mas eu e minha amiga ficamos olhando para tudo o que a família NÃO tem... E pensando, como pesquisadoras, no que poderíamos lhes proporcionar. Um pouco de arrogância a nossa? – fiquei pensando.
A segunda casa que visitamos não tinha as lavouras por perto e encontramos uma venda, a certa distância e um campinho de futebol. Muita poeira, morros queimados. Longe da escola, as crianças usam transporte escolar; casas distantes uma das outras. A família entrevistada era composta apenas de mãe e filho. A mãe não tem nenhum tipo de renda (!) e vive da ajuda de familiares. O menino, mirrado, parecendo ter seis anos de idade em vez dos 10 que tem na realidade, pareceu tímido, embora tenha ficado com um sorriso no rosto durante todo o tempo em que lá estivemos. Foi denunciado ao Conselho Tutelar, segundo a mãe, porque brincava na rua, longe de casa. Agora, não sai mais de casa... E brinca no quintal de terra batida, sozinho e sem brinquedos. A casa é emprestada e está condenada pela Defesa Civil... Fica no alto de um barranco; quando chove muito, o menino sente medo e quer sair de lá. A mãe gostaria que tivesse atividades para as crianças, porque acha que o filho é agitado e precisa se ocupar. Apesar disso, ela gosta mais de morar ali do que no bairro anterior – Mury – de onde saiu quando se separou do pai do menino. Não conseguimos compreender bem o porquê... Para nós, isso não faz muito sentido. Mas pode ser mero preconceito nosso!...
Nessa segunda visita, nosso olhar se voltou para a ausência de brinquedos, já que fomos convidadas a adentrar a casa. E tivemos nosso olhar dirigido ao olhar do menino: os lábios sorriam, mas o olhar era triste... Isso tocou-nos profundamente, especialmente porque ambas, além de professoras, somos mães.
Tanto com uma família quanto com a outra, nossos ouvidos não acreditaram na resposta à última pergunta do questionário (tínhamos um questionário de base, com questões sobre aspectos referentes à moradia, membros da família, renda familiar e coisas do tipo. Além disso, havia perguntas sobre os aspectos positivos e os negativos do bairro e um espaço para sugestões).
A pergunta era: “Quais são seus maiores sonhos?”. E descobrimos que não havia sonhos. Não se tratava de considerar a dificuldade – ou até – a impossibilidade de realizar sonhos; era pura e simples ausência do exercício de sonhar.
O casal de idosos sorriu e foi taxativo: “Não temos sonho nenhum, não”. Instigados por nós, acabaram dizendo que o sonho era conseguir a aposentadoria dela.
A mãe que vive sozinha com seu filho responde que sonha em ter uma casa própria, após insistirmos na pergunta. Perguntada sobre o que sonha para o filho, ela sorriu e ficou sem saber o que dizer, jogando a pergunta para ele: “Filho, você também quer uma casa própria, né?”. Depois de pensar um pouco, o menino disse que seu sonho é ser policial.
E saímos impactadas pelo que consideramos ser a maior falta que sofrem aquelas pessoas: falta de sonhar. E por que isso nos deixa assim? Porque acreditamos que o sonho é o impulso da vida. Porque estamos falando de crianças que não têm incentivo nem exemplo do que seja sonhar. O que farão, elas mesmas, com seus sonhos? Irão simplesmente reprimi-los, sem deixar que aflorem? E o que esperarão da vida, se não sonham com ela – apenas vivem/sobrevivem?
Não tenho essas respostas. Para fechar esse texto que deveria ser um relatório, trago palavras de outros, pois as minhas estão entaladas na garganta...

“Existe uma enorme diferença entre sonho e desejo. Para realizar um sonho é preciso empreendimento, suor e, às vezes, lágrimas. Sonho é um projeto de vida, algo que nosso coração motiva interiormente a partir de perspectivas que intuimos ou vislumbramos e que ressoa dentro de nós como identidade. Encaixa-se com nossas habilidades e eleva-nos como pessoas. É um ideal que dará sentido à vida.
São exemplos do que vêm a ser um sonho: Buscar casar-se, adquirir uma casa própria, um carro, cursar uma faculdade, abrir um negócio, realizar-se numa profissão ou vocação.
Todo ser humano necessita ter um sonho, pois, neste há uma meta, uma direção para onde seguir. Caso contrário, a existência não encontra motivações para superar e aprender com os desafios.
Já o desejo vem a ser a reação imediata diante da possibilidade de sanar nossas vontades mais básicas. É o impulso do instinto.
Desejo é o que sentimos quando estamos com fome, sede ou quando sofremos tentação, desejos da carne, desejo sensual, ira, vingança, gula.
O desejo desperta no gênero humano a manutenção da sobrevivência, mas quando não bem administrado causa desajustes em todo o ser. Porém, nem mesmo quando vivido no equílibrio, ele é capaz de proporcionar um sentido maior para a consciência existencial da pessoa.”
(Os sonhos e os desejos
SEGUNDA-FEIRA, 4 DE JULHO DE 2011, 0H00MODIFICADO: QUINTA-FEIRA, 17 DE ABRIL DE 2014, 14H06[1])

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