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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A dialética entre ensinar e aprender


Quando aprendemos algo, toda a nossa cognição é estimulada, num belo trabalho do nosso sistema nervoso, com as sinapses que nosso cérebro realiza, estimulando os neurônios e produzindo toda uma reação racional que redundará em conhecimento.
Junte-se a isso, a experiência psíquica que ocorre no processo de aprendizagem. Todos sabemos que quanto maior é nossa relação afetiva com o conhecimento adquirido, melhor será o fruto desse aprendizado.
O que aprendemos, no entanto, necessita de tempo para ser construído. A construção não se dá no ineditismo de um novo conhecimento, mas nas novas relações e associações que fazemos com ele e a partir dele. Isso é construção e, como tal, se pensarmos metaforicamente, necessita de uma boa base (a do estudo) para que, sobre sólidos alicerces, seja erguida toda a estrutura, que terá a 'cara' do arquiteto. É aí que entram a inteligência e a criatividade pessoais. Não se trata, na maioria dos casos, de se criar um conhecimento novo, mas da forma como ele se reelaborado por cada indivíduo em particular.
É interessante o momento em que descobrimos que temos, de fato, conhecimento sobre algo. É quando realmente podemos dizer "Eu aprendi". Esse momento não tem a ver, necessariamente, com a realização de uma prova, seja ela como for. Às vezes, passamos pela prova e só muito tempo depois nos damos conta de que sabemos sobre aquele assunto ou conteúdo. E a sensação é sempre maravilhosa!... Aprender é muito bom!
Na mesma esteira de raciocínio, vejo o ensinar. Não é possível ensinar sem ter aprendido e sempre que ensinamos, aprendemos mais. Ai daquele professor que for dar uma aula sobre algo que ainda não tenha aprendido. Acredito que até mesmo uma criança intuirá a respeito disso. Por outro lado, aquele que já aprendeu, se ficar apenas com seu conhecimento adquirido num primeiro momento, também não será capaz de ir muito longe para ensinar. Não só porque o conhecimento em si muda em muitos casos, mas, acima de tudo, porque a interferência do indivíduo é fundamental para o processo de aprendizagem.
Ensinar exige abertura para aprender, na minha opinião. E é algo constante. É claro que quando fazemos um curso, ele tem data marcada para terminar e espera-se que, ao final dele, tenha-se aprendido o que se propusera no seu início.
O que estou dizendo, porém, é que – usando o exemplo acima – é necessário o tempo de amadurecimento daquele aprendizado após o término do curso. E só quando colocamos em prática aquele aprendizado é que podemos dizer que, de fato, construímos aquele conhecimento.
Acredito que isso se dê nas mais diversas áreas do conhecimento, para todas as profissões. Vemos tantas reclamações a respeito de médicos, por exemplo, e além dos problemas reais no ensino das faculdades de Medicina pelo país afora, imagino que um problema fundamental seja esse: diplomado, o médico sai, tendo aprendido tudo sobre sua profissão; mas necessitará continuar aberto para enxergar as possibilidades diárias de aprendizado no exercício da mesma, construindo seu conhecimento na lida com seus pacientes e as situações de saúde/doença.
Tenho de confessar, contudo, que acredito que a dialética entre ensinar e aprender para um professor é a bela mais de todas. Porque o papel do professor é ensinar e ele precisa se dedicar a isso de maneira coerente, justa, serena. Competente.
A palavra competência tem várias vertentes: pode referir-se à aptidão, ao designar a qualidade de quem é capaz de resolver determinados problemas ou de exercer determinadas funções; à idoneidade, quando estamos perante um sujeito capaz de avaliar algo ou alguém. Em qualquer dos casos, é possível que relacionemos a palavra ao papel do professor. Ele deve ser capaz de resolver determinados problemas – os da aprendizagem de seus alunos – e de exercer determinadas funções – as de promover essa aprendizagem, entre outras tantas que se colocam para o professor nos dias de hoje -; ao professor, cabe ‘julgar’ se o aprendizado se deu e em que medida. Para Jean Piaget, “O professor não ensina, mas arranja modos de a própria criança descobrir. Cria situações-problemas.”.
Acredito, todavia, que na essência do ato de ensinar está o de aprender. A cada vez que o professor planeja uma aula e busca textos, informações, imagens (visuais ou não), ele aprende mais um pouco sobre aquilo que vai ensinar. A cada aula realizada, a partir da interação com os estudantes, se eles são realmente estimulados a construírem seu conhecimento a partir do pontapé inicial do professor, o ensino volta-se também para o professor.
A sala de aula é um ambiente rico de experiências e significados. E é um ambiente singular, pois há situações que só podem ocorrer em virtude daquele ambiente. Ao mesmo tempo, é um ambiente plural, porque a despeito de todos estarem reunidos para aprender sob a orientação de um que está preparado para ensinar, as relações no processo ensino-aprendizagem vão além desses papéis previamente determinado.
Chegamos a mais um Dia do Professor. Com tantas manifestações pelo país, reivindicando melhores condições de trabalho. Aos meus colegas, desejo a renovação de suas forças - psíquicas, intelectuais – para a certeza do quão transformadora pode ser sua atuação na vida dos estudantes. Que , ao ensinar, possamos realizar nosso papel de modo ético e competente, ocupando nosso espaço. Assim, quem sabe, possamos continuar acreditando na transformação da sociedade. E, ao ensinar, possamos também aprender, nas palavras de Guimarães Rosa:

“Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende.”

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