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segunda-feira, 8 de abril de 2013

Sobre viver em família



Família é mesmo algo muito especial. Quem tem a sua, não deveria abrir mão dela, por mais difícil que possa ser conviver com pessoas tão próximas e tão diferentes de nós mesmos. Mas talvez o encanto esteja exatamente nisso aí.
É muito bom reunir a família, nas festas que ocorrem o ano inteiro. Aniversários todo mês, casamentos eventuais, batizados de tempos em tempos. E, para os mais próximos, é possível aproveitar a Páscoa, o Natal e até outros feriados. Se moram perto, os parentes ficam sendo visitas frequentes; se a distância geográfica existe, os encontros são mais espaçados e não menos especiais.
As famílias de meu pai e de minha mãe são a mesma, num determinado ponto da árvore genealógica: minha avó paterna era prima em primeiro grau de minha mãe. São dezenas de tios, tias, primos e primas em comum. Não conheço praticamente ninguém, todos espalhados por esse brasilzão.
Mas sei da história de suas famílias mais próximas. Minha mãe teve onze irmãos – cinco homens e cinco mulheres na família, criados no interior do sertão da Paraíba, com muito trabalho do meu avô e da minha avó. Não conheci nenhum dos dois, mas tenho uma imagem de gente simples, inteligente e trabalhadora, que ensinou valores importantíssimos que herdei através de minha mãe. Meus tios e tias, tive a oportunidade de conhecer quase todos e já estive com alguns primos também. Há gente que continuou na Paraíba e lá fez seus herdeiros. Ainda devo à vida uma visita àqueles lá. Aos de São Paulo, revi em 2009, numa viagem que fiz com minha mãe, minha irmã e nossos filhos. E foi lindo!... De mais perto, tínhamos a tia Eurides, no Rio, que fez parte tão intensamente de minhas férias adolescentes. E que me acolheu quando do nascimento de meu filho caçula, cujo parto teve de ser feito naquela cidade. Ela foi acometida por um AVC em 2009 e, covardemente, não fui vê-la... Ela durou pouco depois disso e eu fiquei com a lembrança de seu sorriso maroto, seu jeito implicante e seu imenso afeto por nós. Restou o tio Nô – o mais velho de todos! -, com sua esposa em Itaocara, que pude visitar recentemente. E como um dia ele pôde, numa visita à minha casa, ensinar a mim e a minha irmã a andar de bicicleta, assim fez com meu filho, no dia em que estivemos juntos, aproveitando os terrenos da cidade, debaixo de enormes e belas alfarrobas. A vida dá belíssimas voltas!
Meu pai teve quatro irmãs e, ao se casar, levou-as consigo para o Rio de Janeiro, juntamente com seu pai e sua mãe. Que início de casamento!... Minha memória de infância, dá conta da morte de minha avó paterna, com a imagem de meu pai chorando... E tenho a lembrança de morar na mesma rua em que meu avô e as filhas. A mais velha, minha madrinha, esteve sempre por perto, como até hoje está. As outras três eram adolescentes, quando eu era criança. Recordo-me de ouvir conversas sobre seus namoros às escondidas, sobre fugir de casa, sobre gravidez precoce. Cresci, ouvindo sobre as circunstâncias tumultuadas em que se tornaram adultas. E, por conta disso, eu e minha irmã fomos mantidas à distância delas, durante um período de nossas vidas. Felizmente, isso se desfez posteriormente. Hoje, vejo meu pai próximo de suas irmãs e aprendo um pouco mais com ele sobre a vida. Afinal, família é família!
A motivação que me faz escrever hoje, no entanto, não é das mais alegres. Não houve nenhuma festa em que tenhamos nos encontrado nos últimos tempos. Não nasceu nenhum bebê para aumentar a família. O que me causa emoção e que não deixa meu coração se aquietar é ausência de alguém. Paradoxalmente, porém, mais importante do que isso, o que me emociona é o que pode ser uma família no momento em que um membro seu se vai...
Em 2010, a tia Eurides morreu e vi mais uma faceta da força que minha mãe tem: ela, que esteve presente quando morreu seu cunhado e pôde sustentar emocionalmente o sobrinho que perdia o pai e ficava com uma mãe em cima da cama, mais uma vez, mostrou que suas lições são mais do que palavras, mas estão em gestos e atitudes. Mamãe enfrentou, com muitas lágrimas, mas grande sabedoria, a morte de sua irmã mais próxima. Próxima, porque com ela morou, ao sair da casa de seus pais, muito jovem para ir viver na cidade grande; próxima, porque colaborou na criação de seu sobrinho, que lhe tinha grande amor (se afastou de nós, infelizmente, depois da morte da mãe... Surpresas que fazem parte de viver em família!); próxima, porque foi a única que morava na mesma cidade, durante os onze anos em que mamãe viveu no Rio.
Agora, há poucos dias, foi a vez da tia Nena, irmã de meu pai. Ele, a quem todos tiveram medo de dar a notícia, chorou muito. Mas esteve fortemente presente, próximo a seu cunhado, consolando as próprias filhas, de longe, por telefone. Sensível, mas forte. A prima Bete, sempre com uma aparência de vulnerabilidade, foi uma fortaleza: viveu os dias de hospital, experimentando dormir nos corredores, andar de ambulância, ouvir as piores notícias e tendo de comunicá-las ao primo, que preferiu – precisou – se manter um pouco distante, para cuidar do pai, arrasado com toda a situação. E junto com minha madrinha e a outra prima, Gabi, estão todas se revezando nos cuidados da casa da tia Nena, que sempre a mantinha impecável, bem como tudo do marido e do filho; elas estão se esmerando em promover um ambiente minimamente agradável, que possa apaziguar a dor da perda e a saudade de nossa querida...
É, aprendi muito sobre família. E, a despeito do luto que meu coração vive, renovei minhas esperanças na vida. Morte e vida, dois lados da mesma moeda...
Que eu saiba cultivar minha família: aquela que me criou, e que traz tantas outras juntas; aquela que eu pude construir, entre sorrisos e lágrimas; e até mesmo aquela formada pelos amigos e ‘agregados’ que vamos reunindo pela vida afora.
Para finalizar, um trecho do livro “O arroz de palma”, de Francisco Azevedo, que de modo simples e muito belo, relata a história de uma família, em suas várias gerações, e mostra que amor é planta que seu cultiva a cada dia e necessita de esforço, dedicação e paciência. E que só com ele é possível superar obstáculos e desfrutar os verdadeiros prazeres.
“Família é prato difícil de preparar. São muitos os ingredientes. Reunir todos é um problema. Pouco importa a qualidade da panela, fazer uma família exige coragem, devoção e paciência. Não é para qualquer um. Os truques, os segredos, o imprevisível. Às vezes, dá até vontade de desistir. Preferimos o desconforto do estômago vazio. Vêm a preguiça, a conhecida falta de imaginação sobre o que se vai comer e aquele fastio. Mas a vida – azeitona verde no palito – sempre arruma um jeito de nos entusiasmar e abrir o apetite. O tempo põe a mesa, determina o n;úmero de cadeiras e os lugares. Súbito, feito milagre, a família está servida. Fulana sai a mais inteligente de todas. Beltrano veio no ponto, é o mais brinca;hão e comunicativo, unanimidade. Sicrano – quem diria? – solou, endureceu, murchou antes do tempo. Este, o mais gordo e generoso, farto, abundante. Aquele, o que surpreendeu e foi morar longe. Ela, a mais apaixonada. A outra, a mais consistente.
E você? É, você mesmo, que me lê os pensamentos e veio aqui me fazer companhia. Como saiu do álbum de retratos? O mais prático e objetivo? A mais sentimental? A mais pensativa? O que nunca quis nada com o trabalho? Seja quem for, não fique aí reclamando do gênero ou do grau comparativo. Reúna essas tantas afinidades e antipatias que fazem parte da sua vida. Agora, ponha o avental, pegue a tábua, a faca mais afiada e tome alguns cuidados. Logo, logo, você também estará cheirando a alho e cebola. Não se envergonhe de chorar. Família é prato que emociona. E a gente chora mesmo. De alegria, de raiva ou de tristeza.
Primeiro cuidado: temperos exóticos alteram o sabor do parentesco. Mas, se misturadas com delicadeza, essas especiarias – que quase sempre vêm da África e do Oriente e nos parecem estranhas ao paladar – tornam a família muito mais colorida, interessante e saborosa.
Atenção também com os pesos e as medidas. Uma pitada a mais disso ou daquilo e, pronto, é um verdadeiro desastre. Família é prato extremamente sensível. Tudo tem de ser muito bem pesado, muito bem medido. Outra coisa: é preciso ter boa mão, ser profissional. Principalmente na hora que se decide meter a colher. Saber meter a colher é verdadeira arte. Uma grande amiga desandou a receita de toda a família, só porque meteu a colher na hora errada.
O pior é que ainda tem gente que acredita na receita da família perfeita. Bobagem. Tudo ilusão. Família é afinidade, ‘à moda da casa’. E cada casa gosta de preparar a família do seu jeito.
Há famílias doces. Outras, meio amargas. Outras, apimentadíssimas. Há também as que não tem gosto de nada – seriam assim um tipo de ‘família diet’, que você suporta só para manter a linha. Seja como for, família é prato que de ser servido quente, quentíssimo. Um família fria é insuportável, impossível de engolir.
Há famílias, por exemplo,que levam muito tempo para serem preparadas. Outras, ao contrário, se fazem de repente, de uma hora para outra.
Enfim, receita de família não se copia, se inventa. A gente vai aprendendo aos poucos, improvisando e transmitindo o que se sabe no dia-a-dia. A gente cata um registro ali, de que alguém que sabe e conta, e outro aqui, que ficou no pedaço de papel. Família é prato que você tem que experimentar e comer. Se puder saborear, saboreie. Não ligue para etiquetas. Passe o pão naquele molhinho que ficou na porcelana, na louça, no alumínio ou no barro. Aproveite ao máximo. Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete.”

3 comentários:

  1. Oh querida prima, sem palavras!!!!
    Família é um bem precioso!

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  2. Emocionante! Família é a base essencial da vida. A que herdamos devemos cultivar a que construímos devemos cuidadosamente zelar, preservar.

    Ainda vou conhecê-la pessoalmente PRIMA!

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