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quarta-feira, 24 de outubro de 2012


O ano de 1968 foi emblemático na Europa e repercutiu por todo o mundo. Alguns filósofos e historiadores afirmaram que a rebelião ocorrida nessa ocasião foi o acontecimento revolucionário mais importante do século XX, porque não se deveu a uma camada restrita da população, como trabalhadores ou minorias, mas a uma insurreição popular que superou barreiras étnicas, culturais, de idade e de classe. A maioria dos insurretos eram adeptos de idéias esquerdistas, comunistas ou anarquistas. Muitos viam os eventos como uma oportunidade para sacudir os valores da "velha sociedade", contrapondo idéias avançadas sobre a educação, a sexualidade e o prazer.
Até hoje, 44 anos depois, muito do que vivemos - política e socialmente - é considerado como consequência do que os europeus viveram naquele período.
Nos livros de Histórias e nas aulas das disciplinas das Ciências Humanas, não falar sobre o "Maio de 1968" é uma ignorância histórica e uma alienação política.
Estou lendo um livro sobre Nelson Mandela ("Conversas que tive comigo") e conhecendo cartas, bilhetes e documentos diversos que ele escreveu, enquanto esteve preso de 1962 a 1990. No julgamento, em 1964, sua sentença foi a de prisão perpétua.
Mandela é um ativista político, liderança fundamental na luta contra o apartheid - regime político exercido na África do Sul de 1948 a 1994. A legislação de 1948 dividia os habitantes em grupos raciais, segregando as áreas residenciais, muitas vezes através de remoções forçadas. A partir de finais da década de 1970, os negros foram privados de sua cidadania. Nessa altura, o governo já havia segregado a saúde, a educação e outros serviços públicos, fornecendo aos negros serviços inferiores aos dos brancos.
Em 1990, o presidente Frederik Willem de Klerk iniciou negociações para acabar com o apartheid, o que culminou com a realização de eleições multirraciais e democráticas em 1994, que foram vencidas pelo Congresso Nacional Africano, sob a liderança de Nelson Mandela. Da prisão para a presidência da África do Sul, finalizando de uma vez por todas o apartheid.
Na cadeia em 1968, Mandela era proibido de ler jornais e ele não recebia nenhuma informação sobre o mundo (as cartas que recebia eram vistoriadas pelos policiais, bem como as poucas e raras visitas que lhe eram permitidas). A despeito disso, Mandela manteve viva a chama de sua luta por libertação durante os anos em que esteve preso.
Não uma luta por libertação própria. Para ele, sair da prisão era muito pouco. Propostas que lhe foram feitas para que ficasse livre em troca de encerrar sua luta não foram aceitas. Para Mandela, a verdadeira liberdade consistia em ver o fim da opressão de brancos sobre negros e dos negros sobre muitos dos seus semelhantes. A luta de Mandela era pela liberdade de ideias, por igualdade de condições econômicas, por fraternidade entre os que, tendo pele de cor diferente, compunham um mesmo povo.
Mandela não se alimentou dos discursos de 1968; no entanto, os ideais de sua luta me parecem bastante próximos dos da Europa daquele ano, que repercutiram especialmente pela América Latina, devido à opressão e repressão que se vivia por aqui naquela década.
É claro que a democracia que vivemos hoje - ainda que de forma torta, muitas vezes - é fruto também (e não somente) daquele momento histórico. Mas fico pensando no quanto somos influenciados por lutas de outros e o pouco que conseguimos elaborar de lutas próprias. Podemos colocar a culpa na globalização, é verdade. Isso, porém, pode ser apenas mais uma desculpa para não olharmos para nossa própria realidade e não construirmos criativamente as alternativas de que necessitamos como nação. Mas, o que é uma nação? Só com mais alguns textos seria possível começar a tentar refletir sobre essa resposta (os teóricos contemporâneos não a têm...).
A realidade, sobre a qual penso agora, inspirada pela leitura do livro, é que Nelson Mandela, libertado somente em 1990, tinha um ideal ANTES de ser preso; que seu ideal foi alimentado DURANTE toda a sua vida (inclusive nos anos em que foi privado de saber sobre as notícias do mundo, mas quando permaneceu um leitor voraz da história de seu povo, o que lhe era permitido na cadeia); e saiu moral, intelectual e espiritualmente fortalecido para realizar as mudanças de que seu país necessitava.
Às vezes lamentamos mais do que agimos e facilmente nos acomodamos em prisões pessoais, das quais precisamos de, ao menos, boa vontade para nos libertar. Volto a uma mesma ideia, já trabalhada anteriormente por mim em outros textos: é necessário sonhar.
Para finalizar, trago o poeta Mario Quintana:
Sonhar é acordar-se para dentro.”

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