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quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Só sei que nada sei


“Daquilo que eu sei
Nem tudo me deu clareza
Nem tudo foi permitido
Nem tudo me deu certeza...”
[Daquilo que eu seiIvan Lins]

Sabemos tanto. Começamos a aprender no exato momento em que saímos do útero materno e necessitamos respirar de modo diferente do que vínhamos fazendo há meses.
A partir desse instante, tudo o que nos acontece é novo e precisa ser aprendido. No início, nossos instintos animais nos auxiliam, levando-nos a buscar o alimento que nos manterá vivos. Mas é só. Todo o restante – e infinito – precisa ser aprendido.
Aos poucos e cada vez mais, vamos aprendendo algo que vai além dos sentidos e que dá significado às sensações. Por meio da linguagem, vamos reconhecendo as vozes e identificando os sons que ouvíamos quando ainda estávamos na barriga de nossas mães; vamos enxergando sorrisos e expressões e descobrindo seu sentido; vamos revelando expressões próprias, que vão sendo significadas pelos que estão ao nosso redor.
Em cada gesto de cuidado – para nossa higiene, nossa alimentação, nosso bem-estar – há aprendizado para nós. E, com isso, vamos crescendo num mundo simbólico, cheio de ritos de todo tipo.
Com os animais é tudo mais simples. Meus gatos, hoje com sete meses de idade, ainda me parecem um tanto filhotes. Mas sua agilidade corporal, sua esperteza com os sentidos e sua capacidade de “se virarem sozinhos” me mostram que frágeis somos nós, humanos.
Um bebê com essa idade não sabe andar nem falar e ainda necessita dos cuidados mínimos básicos, sob pena de morrer. Ao mesmo tempo, porém, já aprendeu a usar inteligentemente a linguagem que lhe é possível: choros, gritos, ensaios de palavras, gestos, expressões, movimentos corporais. Tudo fala. Tudo faz mover e lhe traz o que é do seu desejo. Toda a sua linguagem é codificada e interpretada pelos adultos ao seu redor.
O bebê ensina e aprende concomitantemente. Ensina sobre si e aprende sobre si. Ensina também sobre o mundo – pais atentos tornam-se pessoas diferentes, se são capazes de, além de ensinar, aprender com seus filhos. E aprendem sobre o mundo, num volume enorme de conhecimento que vai sendo adquirido. Conhecimento concreto, pela experimentação, pelo exemplo. E conhecimento abstrato, simbólico, sobre o que significam as coisas (aqui no sentido mais amplo, geral e indefinido da palavra coisas; ou seja, TUDO).
O que um ser humano é capaz de aprender nos três primeiros anos de vida é algo impressionante. E a linguagem é, com certeza, a maior responsável por isso. Sem linguagem, um humano jamais seria humano; permaneceria tão somente no reino animal ao qual pertencemos, na categoria de ‘mamíferos’.
O que dizer, então, sobre o aprendizado de uma vida? Sim, porque depois dos três anos de idade e da fase inicial do ‘prezinho’, vem toda uma vida dedicada a aprender. Sobre viver em família e as relações sociais; sobre frequentar uma escola e os conhecimentos construídos pela humanidade; sobre a vida em sociedade e a descoberta de um talento, de uma vocação para o ingresso no mundo adulto do trabalho. É aprendizado que não acaba mais...
Não acaba mesmo. De repente, diante de um desafio profissional ou familiar, percebemos que não sabemos nada... Ou que, ao menos, toda nossa bagagem de vivência e conhecimento não traz a resposta de que tanto necessitamos naquele momento. “Daquilo que eu sei/Nem tudo me deu clareza/Nem tudo foi permitido/Nem tudo me deu certeza...”
Porque, para viver, e aprender a viver, é preciso sabedoria. A sabedoria não está nos livros, se apenas compreendemos o conhecimento ali apresentado e não somos capazes de estabelecer relações com outros conhecimentos adquiridos fora dali. A sabedoria está nos livros, se, a partir deles, somos capazes de ver o mundo com outros olhos e enxergar por outros pontos de vista, relacionando aquele aprendizado com nossas sensações e percepções e refletindo sobre o mundo a nossa volta.
Assim, o papel da linguagem permanece fundamental. Não o da linguagem escrita – que é apenas UMA forma de linguagem, muito valorizada socialmente, é verdade. Mas uma linguagem num sentido mais amplo, que é o que verdadeiramente caracteriza o ser humano e o distingue dos outros animais: a capacidade de criar símbolos e dar significado a eles, transformando a natureza e criando cultura.
Então, é possível compreender porque o que eu sei nem sempre vai me trazer as respostas de que preciso. Talvez seja necessário mudar as perguntas. Talvez o problema esteja na forma de perguntar.
“Só sei que nada sei.” E sei também que quero aprender todo dia. Sei além: sei que aprender dói.

“Não fechei os olhos/Não tapei os ouvidos
Cheirei, toquei, provei
Ah! Eu usei todos os sentidos
Só não lavei as mãos
E é por isso que eu me sinto
Cada vez mais limpo!”
Daquilo que eu seiIvan Lins

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