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quarta-feira, 25 de julho de 2012

Sobre essência, mudança e esperança


Em 2010, li “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos pela primeira vez. E, mais do que gostar do livro, senti-me apegada a ele, reconhecida naquele texto. Compreendi plenamente a dureza das palavras e das expressões de Fabiano e sua mulher. E vi, naquilo, pura sensibilidade. Por trás de aparente desânimo, esperança.
Nunca estive na região do Nordeste. Mas, em minhas entranhas, há a dureza daqueles sertões e da forma de seus habitantes verem o mundo. Sou filha de pai e mãe nordestinos, nascidos no interior da Paraíba, crescidos no seio de uma grande família (eles são primos um do outro, em segundo grau), tornados adultos em meio a muito trabalho, esforço e sacrifício. E muita esperança.
Meu pai e minha mãe estudaram pouco (nenhum dos dois concluiu o Ensino Fundamental) e saíram de casa bem jovens, em busca de melhores condições de trabalho, na cidade. Minha mãe chegou a Recife, em Pernambuco, onde trabalhou; ali namorou meu pai e, em pouco tempo, casou-se ele. Meu pai aprendeu com meu avô o ofício de marceneiro e ansiou por uma mudança para o “sul”, influenciado por ele. Casou-se com minha mãe e partiu para o Rio de Janeiro com a esposa e mais seus pais e suas quatro irmãs, como bom filho mais velho.
Nasci no Rio, um ano e meio depois dessa viagem. Durante a minha infância, conheci as histórias das nossas origens nordestinas, um pouco da cultura, muito da culinária. Meus ouvidos se encantam até hoje por um sotaque daquela região e o reconheço de longe. Vivi numa linda família, com muito trabalho, esforço e sacrifício, que me ensinou todos os valores que persigo ainda hoje. Cresci experimentando conquistas materiais importantes, perdas e frustrações sérias, e novas conquistas posteriormente. Esperança sempre.
Além disso, parece que aprendi, desde o ventre materno, sobre ser duro. É uma dureza que às vezes beira a rispidez – e isso precisa de muito tato e sensibilidade para se perceber. Só mesmo com o passar dos anos e a experiência da maturidade.
Dureza que às vezes se revela como frieza. A que é necessária para “engolir sapos” ou espantar a tristeza para seguir em frente, “custe o que custar”.
Mas também a dureza de “levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima”, olhando para trás apenas o suficiente para tentar não incorrer no mesmo erro, e olhando para frente, firme e determinadamente.
Numa versão mais atual, essa dureza pode ser chamada de resiliência. É mais ou menos como sofrer algo e transformar-se em consequência disso e, em seguida, voltar ao estado anterior, como se nada tivesse acontecido.
Bonito na teoria; possível na Física. Duro, na prática. Porque os sofrimentos vêm dos mais variados modos e nunca estamos verdadeiramente preparados para eles. Porque a transformação é uma condição para que possamos sobreviver e nem sempre um desejo. Porque não é possível “voltar ao estado anterior”. “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia”. Se isso é bom ou não, só vivendo para saber. E viver é sempre uma escolha.
Lembro-me da Parábola do Semeador, presente em alguns dos evangelhos bíblicos. Às vezes a terra é dura, mas, ainda assim, a semente germina. Cultivá-la é que é o desafio e a esperança de quem semeia.
É claro que ser duro é difícil. É importante cuidar para não ser ressentido, amargurado. E, apesar da dureza, “não perder a ternura”. Mas, talvez, ser duro, seja, sim, uma forma de ser feliz.
E só a vida poderá dizer. Afinal, a “esperança é a última que morre”.
“Tudo flui… nenhum homem pode banhar-se no mesmo rio por duas vezes, 
porque nem o homem, nem a água do rio serão os mesmos”
Heráclito (há aproximadamente 500 anos a.C.)

4 comentários:

  1. Querida , ser duro é mais que força , é estar determinado a dizer não e dizer não é muito difícil . Beijo .

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  2. Com a dureza, aprendemos a encarar os desafios e vencer os problemas. Nos tornamos mais sábios e prudentes.
    Bjsssss

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    1. aprendemos também que somos fortes e superamos coisas jamais imaginadas por nós.

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  3. Realmente, Márcia, dureza e esperança, essa é a mensagem do livro. Eu não tenho raízes nordestinas, mas depois dessa leitura eu passei a ter. Vivi um pouco com Fabiano, Vitória, os meninos e a Baleia e agora qd me lembro deles sinto um nó na garganta... Fantástico esse livro! Sempre vou lembrar.

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