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quinta-feira, 14 de junho de 2012

Autonomia, na alegria e na tristeza; na saúde e na doença


Tenho sérios problemas com cicatrizes. Não, nada físico. Tenho poucas cicatrizes pelo corpo e todas se formaram sem maiores problemas. Uma na perna, de uma patetice dentro da cozinha de casa. Uma no pé, de um tombo que levei de moto, numa experiência imprudente com o namorado. Outra, bem recente, de uma pinta que retirei, a fim de evitar problemas futuros. Tenho a marca das duas cesarianas que fiz, cuidadosamente desenhada na segunda vez. E três pequenas e discretas em pontos diferentes do abdômen, em consequência de um procedimento por videolaparoscopia para retirada de vesícula.
Nos casos domésticos, senti a agonia que me é peculiar, quando vejo ferimentos. Sinto-me mal, por menor que seja o machucado (um corte no dedo, por causa de uma faca usada desatentamente, me aflige bastante); se há sangue, prefiro cuidar sozinha e com grande esforço emocional. Um dia, irei a um terapeuta resolver isso. Por enquanto, não há transtornos maiores.
Nos casos cirúrgicos, basicamente não se vê sangue. Passados os incômodos iniciais de efeitos da anestesia, consigo tocar a vida bem. Com certa aflição, é claro. Quero meu corpo de volta rapidamente! O problema maior, porém, é a retirada dos pontos. A necessidade de que alguém toque (ou quase toque) aquele ferimento me deixa muito nervosa. Se eu pudesse passar sem esse momento, seria imensamente grata à vida. Mas não dá. Aliás, houve uma vez em que, meio inconscientemente, tentei: depois da retirada da vesícula, “esqueci” por duas vezes o dia marcado para tirar os pontos. Conclusão: quando finalmente arranjei coragem e fui ao consultório, o incômodo e a aflição viraram dor de verdade, com direito a pequeno sangramento. Isso que dá fugir dos problemas!
Pior do que tudo isso, porém, são os outros tipos de cicatrizes que ganhamos pela vida afora. Aquelas que não são vistas, mas que se sente. Vez por outra chego a lembrar-me delas, mas não posso dizer que isso me cause sofrimento. Parece que não perdê-las por completo de vista significa, para mim, ter algo para aprender. Sim, porque não necessariamente aprendemos no momento em que sofremos. Às vezes, isso só vem algum tempo depois. E acho que as cicatrizes ajudam nisso. Se não desaparecem por completo (as física não desaparecem, não é mesmo?), vão ficando de aparência cada vez mais fraca, quase como um sinal que sempre estivera ali. Mas não esteve; foi criado em consequência de determinada situação e manter a mente atenta a isso é importante para evitar aquele ferimento novamente, a despeito de se ter outros, de maneiras diferentes.
Hoje, acho que, de certo modo, isso se chama ressentimento. E não faz muito tempo que me descobri assim. Foi uma triste surpresa! É duro saber que nossas chamadas características têm, muitas vezes, cara de defeito, sim. E dar nome a ele dói. No entanto, é necessário. Se nos conhecemos, a lida fica mais saudável. E crescemos melhor e melhores.
Meu problema com minhas cicatrizes é que não suporto tocá-las. Nem as do corpo nem as da alma. Até hoje sinto nervoso ao tocar a cicatriz da perna, e me feri em casa há quase vinte anos! Tudo bem, pode ser só uma neura. Talvez tenha de ir ao terapeuta antes do que previa...
O que dizer de tocar aquelas outras cicatrizes – as emocionais? Não, definitivamente, não gosto de situações mal-resolvidas e, se para resolvê-las, for necessário “botar o dedo na ferida”, vou colocar. EU. Ou seja, aqui, também, como em tudo na minha vida, quero autonomia para decidir se vou ou não tocar naquela ferida, pois isso só pode se dar na medida da minha resistência, que é grande, eu sei. Mas é limitada, como a de qualquer ser humano.
Alguém me disse que sou uma pessoa resiliente. Esta é uma das palavras da moda e não gosto muito de modismos. Mas confesso que a definição que veio depois me convenceu de imediato: “Você leva bordoada, mas se levanta e segue em frente.” É, acho que sou isso mesmo.
Odeio ser injustiçada ou traída. Mas também detesto o papel de vítima. Assim, meu esforço para não ficar sofrendo um sofrimento (a ideia é essa mesma; o pleonasmo às vezes é melhor recurso lingüístico que temos) é enorme. Sou capaz de perdoar quem me magoa. Embora perdoar não seja esquecer... E sou capaz de conversar sobre a mágoa. Mas só se houver sinceridade. Para ser manipulada, jamais.
Aceito minhas cicatrizes. Como poderia ser diferente? Entretanto, quero eu mesma tomar conta delas. Ao meu modo. E compartilhá-las com quem achar que devo. Se achar que vale a pena. Para mim e para o outro.

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