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domingo, 27 de maio de 2012

Um mundo relativo

“Não basta apenas constatar que o mundo muda cada vez mais rápido. É preciso dar um passo a mais e abrir a mente para pensar além do óbvio e não perder as oportunidades que esse novo mundo tem a oferecer”.

Há poucos dias, li a crônica de Arnaldo Jabor, no Segundo Caderno do Jornal O Globo, intitulada “As ‘coisas-zumbi’ têm vida própria – Como analisar um mundo de incertezas?”. Não pude deixar de me lembrar da minha turma, no curso de Educação e Contemporaneidade, na pós-graduação do Cefet.
Nas aulas de Literatura e Contemporaneidade entramos em crise. Ou melhor, intensificamos nossa crise. Desde agosto de 2011, vimos conhecendo estudiosos nas áreas de Filosofia, Sociologia, Física, Linguística que defendem uma questão (grosso modo): tudo é relativo.
Inaugurada pelo amigo Einstein, a relatividade chegou às ciências humanas e da linguagem para entender o mundo pós-moderno. E trazer mais perguntas do que respostas.
Interessante é que, como professores, deveríamos estar mesmo no lugar das perguntas, caminho ao qual levaríamos os nossos alunos, através da busca pelo aprendizado que promoveríamos em nossas aulas.
Diferente disso, porém, fomos formados numa escola que aplaude a resposta – a resposta certa, a única possível. Entramos em sala, acreditando que um bom processo de ensino-aprendizagem é aquele que, através e a partir das formas mais variadas, objetiva a descoberta da resposta certa. Nesse processo, procuramos levar nossos alunos a refletir criticamente sobre a realidade, sim; mas sempre em busca da resposta certa – aquela a qual eles deverão seguir ainda depois que saírem da escola.
Causa-nos espanto, porém, a despeito disso NÃO ser novidade, que nos digam que não haja resposta certa. Mais: que nem sempre HÁ RESPOSTA. Parece, num primeiro e assustador momento, que as perguntas são inúteis... Não encontraremos a resposta mesmo; nossa curiosidade, nossa angústia, nossa indagação não serão saciadas nunca.
Os estudantes infantes não sabem disso. De certa forma, aprendem a acreditar que nós, professores, e os livros que usamos contêm a resposta. O que deixa nossas salas de aula mais turbulentas hoje é que as crianças cedo descobrem que isso não é bem assim. Elas sabem que a verdade está em outros lugares, aos quais elas têm acesso através da internet. Mas precisam permanecer no jogo e, quase sempre, o aceitam mais por questões emocionais do que intelectuais-cognitivas propriamente. Então, quanto mais têm afeto por nós, e quanto melhor sabemos incentivá-lo e correspondê-lo, mais sucesso teremos no desenvolvimento de nossas aulas. Se assim não acontece, as crianças – e principalmente os adolescentes - simplesmente deixam de nos dar atenção, de se concentrar em nossas aulas, de realizar as tarefas em casa. Cedo, desconfiam de uma relativa inutilidade nisso tudo.
Não, não considero a Educação uma inutilidade. Sou professora por vocação e convicta de que a educação pode transformar as pessoas; sem ela, nosso mundo seria mais pobre e mais feio, com certeza, se pensarmos que o principal de um processo educativo é trazer à luz a cultura existente, provocando a produção de novas culturas. Aqui, cabe uma distinção entre novo e novidade, a partir da ótica do filósofo Mário Sérgio Cortella: não novas culturas, como novidade, que significa aquilo que surge e, pouco tempo depois, desaparece para nunca mais se lembrado; mas nova no sentido daquilo que é criado a partir de algo que, a despeito de ter muito tempo histórico, mantém-se novo, porque continua a falar, num outro tempo e num outro espaço. Tempo e espaço, nesse caso, são relativos quando se trata de conhecimento. De bom conhecimento.
O problema é que o iluminismo e suas descobertas científicas forjaram uma mentalidade nossa cartesiana, sistematizada pelo positivismo. E hoje, dois séculos depois, ainda não é possível pensar de forma muito diferente...
Então, entramos em crise. Na pós, somos vinte e poucos alunos, na grande maioria, professores. Somos da geração pós-ditadura, professores desejosos de ver nossos alunos com boa formação acadêmica e atuantes políticos como cidadãos de bem, que reflitam sobre a realidade e exerçam responsavelmente sua liberdade de falar.
As discussões, porém, nos traem. Aos poucos, vamos revelando o quanto positivistas somos e o quanto isso está mascarado para nós mesmos. A cada aula, vamos descobrindo que nossa forma de ler o mundo precisa ser diferente e que ninguém tem a resposta de que forma é essa. Vamos ter de descobrir sozinhos e a teoria que apreendemos e sobre a qual discutimos será base, MAS NÃO SERÁ RESPOSTA. E nossa prática, precisa ser cotidianamente vivida e repensada, se desejamos efetivamente educar as crianças e jovens que chegam às nossas salas. E, talvez, não cheguem exatamente atrás de uma resposta, mas desejosos de discutir todas as que são possíveis. É o século XXI. E o desafio está posto.

3 comentários:

  1. Muito bom, Marcinha!! É isso aí!!! Beijos, Mariana

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  2. è isso mesmo . relativo a relatividade vamos ensinando e aprendendo que há muitos mundos paralelos , muitos modos de ver , ouvir , reagir , pensar .APRENDER. Ler o mundo , decifrar o que se modifica e dar a cada modificação um jeito nosso , de cada tempo carregado da cultura que transcende .Bj Gostei

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  3. Adorei a reflexão Márcia. E obrigada por nos incluir. Somos todos passageiros desse barco contemporâneo, que ora nos traz algumas respostas, mas quase sempre nos traz perguntas e mais perguntas...rsrs... bjos!!!!;)Paula.

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