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domingo, 11 de março de 2012

A permanência da mudança


“Tempo, tempo, tempo, tempo
Compositor de destinos/Tambor de todos os ritmos
Entro num acordo contigo/Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo/Ouve bem o que te digo
Peço-te o prazer legítimo/E o movimento preciso
De modo que o meu espírito/Ganhe um brilho definido/E eu espalhe benefícios
Tempo, tempo, tempo, tempo”
(adaptado livremente)

Professores e estudantes têm um privilégio em suas férias. Gozam desse período, logo depois das festas de fim de ano e iniciam um novo ano descansando.
Junte-se a isso toda a simbologia da “virada do ano”. É interessante como, ano após ano, vivemos o ritual de encerrar um ciclo e iniciar outro... Como se apenas a mudança de data tivesse o poder de realizar algo desse porte.
Na verdade, fechamos e iniciamos ciclos de tempos em tempos, sem um período definido, nem uma data determinada, tão somente de acordo com a realidade das nossas experiências e vivências.
Mas fato é que a força da passagem do ano nos sensibiliza e nos provoca a fazer balanços de vida e planos futuros de mudanças de atitudes. Confesso que a primeira parte especialmente me atrai: adoro pensar sobre o que houve e como aconteceu, procurando identificar o que assimilei e o que ainda está em acomodação. Um réveillon um tanto quanto piagetiano demais, concordo.
Independentemente, porém, da mística da chegada de “um novo tempo”, nós, professores, temos uma experiência especial: como nos afastamos nessa época de nossos colegas de trabalho, quando nos reencontramos, há sempre muita novidade. Houve o verão, a praia, a viagem, e isso e aquilo.
De uns tempos para cá, tenho prestado mais atenção nisso, acho que por causa da presença dos meus filhos e da experiência de vê-los crescendo, tão vivaz e rapidamente. O tempo não pára e, no entanto ele nunca envelhece”, já disse o poeta. Cada dia que passa, é enriquecido de vida e renovado.
Depois da tragédia climática que vivemos em nossa cidade, em 2011, a reflexão sobre isso se intensificou em mim. Tantas histórias – de vida e de morte. Como diz a sabedoria popular, “para morrer, basta estar vivo” e essa realidade extrema (“curta e grossa”) me toca profundamente desde então. Um ano e dois meses depois, aqui estamos. Voltamos à vida normal? Jamais.
Talvez por tudo isso, o retorno às aulas do curso de pós-graduação, há três dias, mexeram comigo de um modo diferente. Conheci as pessoas da minha turma em agosto de 2011 e com elas convivi durante os cinco meses seguintes, por quase todos os finais de semana. Nossas conversas, sempre motivadas por questões intelectuais/culturais, permitiam que pouco nos revelássemos em nossas intimidades. Mas sempre havia alguma informação mais íntima e pessoal que ficava exposta.
Ao nos reencontrarmos, estive com alguns dos colegas mais proximamente (obviamente, com aqueles com quem tivera algum nível de intimidade e criara um certo vínculo). Quantas mudanças: o pai adoentado morreu, o namoro apaixonado se desfez, intenções de trabalho se modificaram... O sonho do casamento está mais próximo de se concretizar, o plano da academia foi posto em prática, novas experiências profissionais surgiram...
Fiquei pensando nas minhas próprias transformações... Algumas facilmente reveladas; outras, nem por mim mesma reconhecidas... Mas existem – é fato. Estão nos pensamentos, nos sentimentos, nos modos de enxergar as coisas. Isso são identidades? Preciso perguntar ao meu professor Leandro!
Lembrei-me da novela “A vida da gente” que terminou há cerca de duas semanas, lindamente. Noveleira de carteirinha, embora com pouco tempo para acompanhar todos os capítulos, seja em que horário for, considero que essa foi uma das melhores telenovelas dos últimos tempos. De curta duração, com poucos personagens, trama enxuta e algo que eu adoro: passagem de tempo. Abordando um triângulo amoroso – tema recorrente no gênero -, a obra foi original na forma como o triângulo se formou, se desenrolou e foi solucionado. Tudo porque o mote principal é “o tempo muda tudo”.
Longe de ter uma visão líquida do amor, como diria Baumann, a novela mostrou o sentimento de forma intensa, com todas as dores, perdas e escolhas que envolvem amar. Mas mostrou, também, que ele se modifica... como a vida. E também se modificam a amizade e todas as relações, que se transformam os pensamentos e desejos e os modos como se vê a vida... Mostrou, acima de tudo, como é difícil de encarar a mudança, digeri-la e levá-la adiante, como parte da vida.
Para terminar, recorro a uma frase que foi trabalhada no capítulo final da novela, do filósofo grego Heráclito de Éfeso: “Tu não podes descer duas vezes no mesmo rio, porque novas águas correm sempre sobre ti”. 
Talvez a grande lição da vida seja aprender conhecer as mudanças e transformá-las em crescimento e renovação, numa dinâmica entre razão e emoção. Para quê? Para conseguir ser feliz!

"Nada é permanente, exceto a mudança." Heráclito

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