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segunda-feira, 12 de março de 2012

Maternidade no reino animal: lições para a humanidade


Quando queremos dizer que alguém agiu de modo extremamente errado e mau, dizemos que a pessoa parecia um “animal”. Observando Julieta e seus filhotes, tenho repensado bastante sobre isso.
Julieta, instintivamente, teve seus filhotes sozinha. Cuidou de cada um deles com autonomia, independência e, aos meus olhos, afeto. Deu-lhes banho e alimentou durante dias seguidos, saindo de perto apenas para comer. Procurou o melhor abrigo, segundo seus critérios, rejeitando o que lhe oferecemos. Intuição de mãe.
A fragilidade do ser humano fica evidente quando acompanhamos algo assim. Para parir, necessitamos de ajuda antes, durante e depois do parto. Algumas mulheres, aliás, agem como se estivessem doentes diante de algo que é tão natural. Até os partos de cesariana já não são mais tão complicados e de recuperação longa como o eram antigamente. É possível, sim, estar normal em pouco tempo – experiência própria.
Além disso, quantos são os casos de mães que não alimentam seus filhos adequadamente nem cuidam de sua higiene como deveriam nem do seu abrigo.
Aqui, não me refiro às mães pobres ou sem instrução, nem àquelas inconseqüentes que têm seus filhos em más condições.
Infelizmente, descartando os estereótipos da “mãe má”, penso naquelas que amam seus filhos e, por causa disso, muitas vezes, acabam por lhes causar algum mal. Refiro-me àquelas que oferecem quase sempre os alimentos que seus filhos mais gostam, mesmo que sejam os que não os nutrirão de fato; àquelas que, em nome de uma limpeza extrema, não permitem que seus filhos experimentem espaços e brincadeiras diversas, exercitando sua motricidade e aprendendo com a vivência a “cair e levantar”; àquelas que preparam um abrigo (seu lar) de modo primoroso e evitam que os filhos vivenciem as experiências de outros lares e locais, privando-os de cultura, lazer e aprendizado.
Julieta segue, pelo seu instinto materno de mamífero, protegendo e ensinando seus filhotes, que ainda vão completar dois meses de idade. Pouco a pouco, foi deixando de limpá-los; eles agora já ficam calmamente sentados se lambendo em sua higiene cotidiana. Parou de deitar-se pronta para que cada gatinho fosse mamar em um de seus mamilos (às vezes chega a se recusar a amamentá-los); passou a trazer-lhes caça fresca, que rapidamente destroçam. Deixou de se preocupar com os cachorrinhos que chegaram para completar nossa família; de início, reagiu bravamente a eles, não saindo de perto de sua cria. Agora, apenas os olha de modo desconfiado, mas contenta-se com isso. Acho que passou de proteção a apenas ciúme mesmo; coisas de mãe.
E, nós, seres humanos? Como é difícil para as mães vencerem as etapas dos filhos – com os filhos – e respeitar seu sofrimento para crescer. Para muitas, se apiedar deles é revelação de amor. E, às vezes, com esse sentimento, mais prejudicam do que beneficiam seus rebentos. A dor de cada um precisa ser vivida pelo indivíduo; sem isso, corre-se o risco de não se saber como lidar com o que é inerente à vida – perdas e danos.
Humanos, temos as fragilidades que nenhum outro animal tem. Nossa pele não está preparada para as mudanças climáticas; nosso corpo não suporta determinadas atividades físicas; nosso alimento não pode vir diretamente da natureza.
Humanos, a despeito e por causa de nossa vulnerabilidade, aprendemos a não somente cobrir nossos corpos de forma adequada ao clima, mas criamos moda. Inventamos atividades diferenciadas e diversas para atender a quem é “mais do corpo”, a quem é “mais do espírito”, a quem é “mais da mente”. Criamos lazer e trabalho. Criativamente, elaboramos os pratos que nos alimentam, temperando-os para os olhos e para a boca. Criamos símbolos. Porque somos instinto, mas somos também cultura.
Olho para Julieta e enxergo nela significados que ela não quis dar. Ela não pode dar. Embora se comunique, o significado da sua comunicação sou eu quem dou. Mas não posso deixar de aprender com ela, na sua firme, doce e sábia maternidade.

2 comentários:

  1. Lindo texto, Márcia!!
    Passando para prestigiar seu trabalho...
    Bjos

    Mara Olival - Letras/FFSD

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