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quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A perseverança que salva

Sofro muito com despedidas, normalmente. Como sua uma pessoa reservada em relação a expressar meus sentimentos, nem sempre é perceptível o tamanho do meu sofrimento quando preciso me despedir de algo ou de alguém.
Percebo que, de alguma forma, isso sempre esteve em mim. Lembro-me de que, na infância, eu tinha um sonho recorrente de que saía de casa e quando voltava não encontrava ninguém nem nada do que deixara. Acordava sempre assustada e ficava pensando no sonho dias seguidos, com as sensações ruins que ele me provocara.
Talvez, se eu fizesse psicanálise, poderia descobrir o que há em mim, inconscientemente, que me causou esse sentimento, num passado remoto. Mas dá preguiça de investigar isso. E um pouco de medo também.
Fato é que isso não preocupa minha mente até que eu necessite viver uma despedida. É assim quando vou visitar ou recebo a visita de alguém querido que não costumo ver com frequência. Na hora do “tchau”, sempre dá uma vontade de dizer “espera mais um pouco...”. 
Para piorar as coisas, logo cedo, precisei me afastar de todos – eu, meus pais e minha irmã viemos morar em Friburgo, quando eu tinha dez anos de idade e me separei de amigos, vizinhos e familiares. Foi uma dor e tanta e parece que eu a sinto cada vez que me lembro do dia da nossa chegada aqui...
É assim com cada turma que perco todo ano. E olha que já perdi muitas ao longo desses vinte e um anos de profissão... Mas dá sempre uma vontade de, chorando, dizer “ah, vamos começar tudo outra vez?”.
Este ano não é diferente. A 3ª série do Ensino Médio vai se formar no próximo dia 06 e esses alunos, com os quais caminhei pelo menos por três anos, irão seguir seus rumos, longe da escola. Já estou sentindo sinceras saudades de encontrá-los diariamente.
Acontece que este ano é diferente. Talvez pela tragédia climática vivida por todos, tudo o mais que aconteceu no decorrer de 2011 foi uma pequena “tragédia”. Se é esse o motivo ou não, não sei. Só sei dizer que parece estar doendo mais dessa vez...
Fico pensando no trabalho que esse pessoal me deu durante os três anos do Ensino Médio e acho que é por isso que a dor é maior. Se tivesse sido somente o trabalho, agora eu me sentiria aliviada e poderia dizer “até que enfim!”. Mas depois do trabalho todo, hoje, já no final, ao encontrá-los na rua, ao ler seus e-mails e mensagens, ao analisar seus discursos de homenagens na formatura a sensação é de que algo de bom ficou, sim; de muito bom e profundo. As “lições de moral” talvez não tenham sido totalmente em vão. Acho que “valeu a pena!”.
Não tenho a ilusão de achar que é assim com todos, ainda que possa parecer meio cética. Sou mesmo, às vezes.
Tenho certeza, no entanto, de que é para alguns e só por causa desses que posso repetir a frase: “valeu a pena!”.
Lembro-me de uma história do Evangelho em que Jesus cura dez leprosos que aparecem a sua frente, revelando o desejo de se tornarem limpos – já que a lepra, naquela época, era considerada uma doença impura. Das dez pessoas curadas, apenas uma voltou para agradecer. É assim com a vida mesmo: nem sempre temos o alcance do Bem que fazemos e, mais do que isso, não atingimos a todos, se pensarmos que a atitude do Bem necessita de reciprocidade: eu faço, mas o outro só recebe verdadeiramente se estiver aberto para reconhecer isso.
Agradeço a Deus pelo exercício do magistério todos os dias. Por essa troca constante e pelas vezes que consigo enxergar os frutos, descobri-los e até, algumas vezes, desfrutá-los. E peço a Ele que não me deixe cair na tentação de desistir diante dos percalços e das dúvidas; antes, me conceda sabedoria e discernimento para ver além dos meus olhos, ouvir além dos meus ouvidos e sentir juntamente com o pensar.
E disse Jesus: Levanta-te, e vai; a tua fé te salvou.
A cura dos dez leprosos, em Lucas 17, 11-19 

5 comentários:

  1. Márcia! Muito lindo o seu texto. Estamos na mesma situação de despedida, né? Mas não fique assim porque você ainda vai me encontrar muito, viu? Um beijo grande! :)

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  2. Nossa Márcia, que texto maravilhoso! Saiba que também nos sentimos da mesma forma e que você, mais do que coordenadora, sempre foi um exemplo de esforço e dedicação nas atividades que realiza, além de grande amiga! Nós a amamos muito, viu?! Grande Beijo!

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  3. Com certeza esse texto define o que todos nós estamos sentindo agora, mas como a Paulinha mesmo disse, você não vai se livrar da gente assim tão fácil. Afinal de contas, isso não é um "Adeus", mas sim um "Até logo".
    Beijo!

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  4. O seu texto me tocou muito porque a despedida pra mim também é muito dolorosa.Por sorte coisas novas virão para distrair o coração apertado!
    Bjs

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  5. Marcia o texto e emocionante! expressa bem o que estamos sentindo nessa reta final..foram muitos anos juntos e realmente tudo valeu a pena. Torno minhas, as palavras da Paula e do Danillo. Obrigada nao so pela coordenacao mas tambem pela amizade e companheirismo.Beeijos Thais Anuda.

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