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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Transcendência, consumismo e eternidade

Num dos textos de Bauman, ele mostra como o conceito de transcendência, na contemporaneidade, foi modificado por causa do consumismo. Mais importante do que buscar o bem e fazer o bem é sentir-se bem, é ser feliz.
Aqui não quero fazer um discurso contra a felicidade ou tentar defini-la. Uma discussão desse tipo sempre revela o paradoxo de ser feliz: tão simples e, ao mesmo tempo, tão complexo.
Mas o que me chama a atenção é a importância que se dá ao TER como objetivo de alcançar e expressar felicidade. Uma insatisfação humana que, de normal na maioria das vezes, passou a ser compulsiva.
E, observo, mais do que trazer felicidade, é importante que nossas posses (sejam objetos, imóveis, dinheiro, poder, status, amizades, amores...) sejam conduzidas de modo a não nos trazer infelicidade. E o que não nos faz feliz deve ser facilmente descartado; vira lixo.
Assim, fica difícil crescer, já que, além de se evitar o sofrimento, finge-se não encontrá-lo sempre que ele aparece - e ele SEMPRE aparece, de algum modo.
Segundo Bauman, no livro "Vida para consumo", nossa sociedade promete uma "felicidade instantânea e perpétua" e é a uma sociedade que "evita justificar/legitimar qualquer espécie de infelicidade, que se recusa a tolerá-la e a apresenta como uma abominação que merece punição e compensação".
Pensei muito sobre esse assunto e minha fala ainda não é capaz de revelar com clareza meus pensamentos, diante de tão difícil tema e de tão dura realidade.
Mas, lendo hoje um texto de Leonardo Boff, não pude deixar de me lembrar das discussões que ocorreram na turma da pós; segue para deleite de todos.

Márcia Lobosco


Oficialmente velho

Leonardo Boff [publicado em 14/12/2008]

Neste mês de dezembro completo 70 anos. Pelas condições brasileiras, me torno oficialmente velho. Isso não significa que estou próximo da morte, porque esta pode ocorrer já no primeiro momento da vida. Mas é uma outra etapa da vida, a derradeira. Esta possui uma dimensão biológica, pois irrefreavelmente o capital vital se esgota, nos debilitamos, perdemos o vigor dos sentidos e nos despedimos lentamente de todas as coisas. De fato, ficamos mais esquecidos, quem sabe, impacientes e sensíveis a gestos de bondade que nos levam facilmente às lágrimas.
Mas há um outro lado, mais instigante. A velhice é a última etapa do crescimento humano. Nós nascemos inteiros. Mas nunca estamos prontos. Temos que completar nosso nascimento ao construir a existência, ao abrir caminhos, ao superar dificuldades e ao moldar o nosso destino. Estamos sempre em gênese. Começamos a nascer, vamos nascendo em prestações ao longo da vida até acabar de nascer. Então entramos no silêncio. E morremos.
A velhice é a última chance que a vida nos oferece para acabar de crescer, madurar e finalmente terminar de nascer. Neste contexto, é iluminadora a palavra de São Paulo: ”na medida em que definha o homem exterior, nesta mesma medida rejuvenece o homem interior”(2Cor 4,16). A velhice é uma exigência do homem interior. Que é o homem interior? É o nosso eu profundo, o nosso modo singular de ser e de agir, a nossa marca registrada, a nossa identidade mais radical. Esta identidade devemos encará-la face a face.
Ela é pessoalíssima e se esconde atrás de muitas máscaras que a vida nos impõe. Pois a vida é um teatro no qual desempenhamos muitos papéis. Eu, por exemplo, fui franciscano, padre, agora leigo, teólogo, filósofo, professor, conferencista, escritor, editor, redator de algumas revistas, inquirido pelas autoridades doutrinais do Vaticano, submetido ao “silêncio obsequioso” e outros papéis mais. Mas há um momento em que tudo isso é relativizado e vira pura palha. Então deixamos o palco, tiramos as máscaras e nos perguntamos: Afinal, quem sou eu? Que sonhos me movem? Que anjos que habitam? Que demônios me atormentam? Qual é o meu lugar no desígnio do Mistério? Na medida em que tentamos, com temor e tremor, responder a estas indagações vem à lume o homem interior. A resposta nunca é conclusiva; perde-se para dentro do Inefável.
Este é o desafio para a etapa da velhice. Então nos damos conta de que precisaríamos muitos anos de velhice para encontrar a palavra essencial que nos defina. Surpresos, descobrimos que não vivemos porque simplesmente não morremos, mas vivemos para pensar, meditar, rasgar novos horizontes e criar sentidos de vida. Especialmente para tentar fazer uma síntese final, integrando as sombras, realimentando os sonhos que nos sustentaram por toda uma vida, reconciliando-nos com os fracassos e buscando sabedoria. É ilusão pensar que esta vem com a velhice. Ela vem do espírito com o qual vivenciamos a velhice como a etapa final do crescimento e de nosso verdadeiro Natal.
Por fim, importa preparar o grande Encontro. A vida não é estruturada para terminar na morte mas para se transfigurar através da morte. Morremos para viver mais e melhor, para mergulhar na eternidade e encontrar a Última Realidade, feita de amor e de misericórdia. Ai saberemos finalmente quem somos e qual é o nosso verdadeiro nome.
Nutro o mesmo sentimento que o sábio do Antigo Testamento: ”contemplo os dias passados e tenho os olhos voltados para a eternidade”.
Por fim, alimento dois sonhos, sonhos de um jovem ancião: o primeiro é escrever um livro só para Deus, se possível com o próprio sangue; e o segundo, impossível, mas bem expresso por Herzer, menina de rua e poetisa:”eu só queria nascer de novo, para me ensinar a viver”. Mas como isso é irrealizável, só me resta aprender na escola de Deus. Parafraseando Camões, completo: mais vivera se não fora, para tão longo ideal, tão curta a vida.

Um comentário:

  1. A famigerada pós-modernidade, dando-nos motes e motes para refletir, mesmo que rapidamente, sobre suas convulsões. Por mais que esta seja uma época em que o culto ao descartável, ao aparente, ao ter, em detrimento do ser, seja predominante, ainda é possível reconhecer neste vazio um mundo rico para meditações profundas e necessárias, como as que você teceu. Dizem que a última época abarrotada de bagagem, de fato, para produções intelectuais foi o período militar. Contudo, discordar é preciso quando a realidade penetrante é aquela que começa na década de 1990 e perdura até os nossos dias, sem previsão de fim. Em um tempo de incertezas, como este, refletir é, mais do que nunca, preciso; registrar considerações importantes, como as suas, e propagá-las ao mundo é urgente; e resistir a acreditar na mudança, de nós mesmos e do próximo, é FUNDAMENTAL! Parabéns por sua produção!

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