segunda-feira, 14 de junho de 2021

Santo Antônio, gestos e memórias

 Fui ao mercado esta semana e, ao finalizar as compras, a moça do caixa perguntou: “Quer pãozinho de Santo Antônio?”. Fiquei tão surpresa e feliz que disse “sim”. Não sem antes a moça ter de repetir a pergunta, de tão inesperada que aquela frase foi pra mim.

Eu, que vou exclusivamente ao mercado e o faço sempre com preocupação e receio nestes tempos de pandemia, saí com o coração reconfortado, carregando nas bolsas uma sacolinha com pãezinhos de Santo Antônio. 

Não sou devota de fé, mas de afeto. Esse gesto me levou de volta ao período dos meus 10 aos 13 anos, quando eu morava com meus pais e irmã em Olaria e todo ano, em 13 de junho, era o dia de ir à Igreja de Santo Antônio buscar os pãezinhos. 
As lembranças vieram com um delicioso gosto - nos olhos, na pele e no coração - de céu azul, sol forte, caminhada a pé de Olaria até a Praça do Suspiro (não era procissão religiosa, não, era falta de grana pra pagar passagem de ida e volta pra três - eu, minha irmã e minha mãe), celebração e o presente final: levar os pãezinhos para casa. 
Tudo consistia num rito, que, para mim, era mais do que religioso, pois tinha todos esses elementos que eu alcançava pelos meus sentidos. 
Ou, talvez, fosse a essência da religião: toda aquela preparação desde a saída de casa até o objetivo final, ao me tocar de forma ampla e tão bela, me ligava, mais uma vez, a Deus. 

Em casa, os pãezinhos iam para as latas (latas mesmo, de alumínio, que minha mãe areava com capricho); a crença era que, ali guardados, os pãezinhos abençoavam a casa e o alimento não faltaria até a renovação do rito, no próximo 13 de junho. 
Quanta beleza nosso tudo!
Como foi bom recordar isso! 

Fé genuína, passeio em família ao ar livre e rituais que fazem história. Não a grande História- mas aquela que é de cada um e que constrói os sentidos do viver. 

Meu coração ainda bate forte por esse gesto!

domingo, 18 de abril de 2021

Dia Nacional do Livro Infantil – 2021 e a busca pela valorização dos livros

 No Dia Nacional do Livro Infantil, no ano de 2021, fiquei pensando sobre muitas questões que ainda afetam a promoção da leitura literária no Brasil. Falo sobre meu país, pois é onde nasci, cresci, me formei, onde atuo profissional e continuo estudando. E a questão da literatura – e da leitura – me é muito importante. Aqui, nesta data celebrativa, temos sobre nós o pavor de um governo que deseja taxar livros... com uma nação que ainda precisa muito de incentivo, estímulo e efetivas públicas de valorização da leitura, da literatura, dos escritores e dos professores – esses tão importantes no papel de promover a leitura.

Fiz um vídeo brevíssimo, cujo link compartilho ao final deste texto, em que provoco pais, mães e demais familiares, assim como os professores a olharem para o lado e atentarem para a criança que têm por perto e lhes oferecer livros. Mais do que isso, pois não se trata de um simples incentivo ao consumismo desse objeto: a provocação é sobre ler para a criança e sobre ler para a criança; é sobre ter livros em casa e sobre não deixá-los empoeirados nas estantes; é sobre visitar bibliotecas a aprender a reivindicar mais espaços desses que verdadeiramente democratização a leitura, pois permitem o acesso a livros a quem não pode adquiri-los; é sobre visitar livrarias e prestigiar o comércio local e sobre olhar livros e saber escolhê-los; é sobre não usar como desculpas o preço de um livro e realmente estabelecer prioridades quanto às compras; é sobre enxergar como trabalhadores os bibliotecários, livreiros, escritores, ilustradores, editores e toda a enorme cadeia em torno do livro; é sobre a experiência estética e sinestésica que o objeto livro possibilita e que já jamais será alcançada por um documento em PDF (que, reunidos, formam a falsa “biblioteca virtual”); é sobre assistir a programas de promoção de leitura e participar de projetos literários.

É um vídeo curto, muito curto. São apenas algumas breves provocações. Eu desejo, no entanto, que sejam tão provocativas que gerem transformação.

Que às crianças seja oferecido o direito à leitura e à literatura e o acesso a livros. E que elas se tornem adultos que saibam fazer escolhas éticas, que tenham sua sensibilidade despertada, capazes de lidar com as próprias emoções e agir com ética e afeto e que possam atuar como cidadãos que busquem uma humanidade cada vez mais desenvolvida em prol da coletividade.

É muito? Sim. Utópico, talvez. Mas se a utopia serve para nos fazer caminhar, continuo na estrada, esperançando.

Nova Friburgo, 18 de abril de 2021

Márcia Lobosco



domingo, 21 de março de 2021

Sobre erguer um lar

 

Detesto mudar de casa. Deixar meu canto, começar tudo de novo. É tão difícil pra mim, que perco toda a minha capacidade de organização e minhas mudanças quase sempre são bagunçadas. Acho que faço um grande boicote, porque, de certa forma, não quero me mudar. Mas mudo, sempre que é preciso.

Já mudei de casa várias vezes. Três mudanças, porém, deixaram cicatrizes em mim. Uma ferida que dói sempre que é cutucada. Dor de separação não superada. Apesar de toda a superação que efetivamente veio, trazendo uma vida boa e feliz. Mas algo permaneceu triste para sempre. E tristeza dói.

Na primeira vez eu era criança. Isso já tem quase quarenta anos. E eu sinto de novo o coração apertar quando me lembro da notícia de mudança. Lembro as preocupações que tive – “Será que nessa cidade tem correio?”. Sim, foi uma mudança drástica: fomos morar em outro município, distante duas horas e meia da minha escola amada, dos meus amigos queridos, da igreja que eu começara a frequentar. Como eu conhecia bem o alento que proporcionado pelo carteiro chamando no portão para entregar correspondência nova, pus nisto minha fé: tendo correio, vou poder trocar muitas cartas! Era o poder da escrita que eu já conhecia, aos 10 anos de idade.

Adulta, casada, com filhos, vinte e poucos anos depois dessa experiência, tive de, novamente mudar de casa. Era na mesma cidade, pelo menos. Durante alguns anos, voltava ao bairro antigo só para olhar para aquela casa – a casa amarela. Fora construída no início do casamento, abrigou a família que se iniciava, foi preenchida com alegrias de encontros, lágrimas de desencontros, chegadas e partidas de filhos, desejos e muitos sonhos. Tinha encantamento de infância, vivida plenamente em cada cômodo e nas brincadeiras sob o sol no quintal. Poucos anos vivemos naquela casa. O suficiente, porém, para marcar as memórias afetivas para sempre.

A terceira mudança não é o que se entende por trocar de casa. Ninguém morava mais nela, quando foi vendida. Mas efetivar a venda da casa pôs o ponto final da história daquele lugar na minha vida. Aquela havia sido a casa construída por meus pais com extremo esforço e erguida pouco anos depois de chegarmos à cidade. Quando começamos a viver naquela residência, foi uma celebração simbólica de que tudo havia dado certo, apesar dos percalços. Ali, as esperanças se renovaram de que, sim, a escolha da mudança havia sido acertada. Depois dali, houve ainda muitas dificuldades; a chuva de bênçãos, porém, foi abundante. Mesmo o momento de saída de cada filha, os retornos e as reviravoltas, foram vividos com intensas emoções e muita felicidade, ao final. Até o dia em que não foi mais possível que houvesse ninguém na casa. Decisão difícil; consequência das intempéries da vida – a casa, tão amada, virou sinônimo de medo. Mas permaneceu ali, ainda por algum tempo, guardando algumas das nossas coisas, e todas as nossas memórias sempre reavivadas em pequenas visitas para buscar algo. Até o dia em que, felizmente (ah, esses paradoxos da vida!...), apareceu um comprador e a casa foi vendida. Pra nunca mais.

Já foram mudanças de casa. E sempre me atrapalho com isso. Dá preguiça, dá desânimo, dá medo. Demoro a separar tudo, não consigo me organizar bem. Levo meses na rearrumação. E, de repente, como se não tivesse havido nenhuma dificuldade, a casa está com tudo em ordem e com a minha cara. E eu estou feliz.

Mas... há três cicatrizes. Eu as vejo. Estão ali para não me deixar esquecer. Lar é construção diária. E tem mais a ver com pessoas e afetos do que com qualquer outra coisa.

 

Márcia Lobosco

Nova Friburgo, 21 de março de 2021

Outono pandêmico (outra vez)

domingo, 7 de março de 2021

Peço aos céus para me proteger

A Pandemia da Covid-19 continua atingindo a muitos e ceifando vidas pelo mundo afora. No Brasil, um ano depois do primeiro caso detectado, os dados são terríveis. A vacinação, tardiamente iniciada se comparada a outros países, segue a passos lentos. E tudo ao nosso redor é assustador, grotesco, desalentador.

A despeito de toda a dor, medo, indignação, preocupação e até desânimo em muitos momentos, sigo pelas redes sociais falando sobre alegrias. Não é alienação. É a busca por trazer à tona experiências vividas que possam iluminar dias sombrios.

As tristezas que nos rondam fazem meu coração chorar. Todo dia. 
Sigo, então, buscando alento. Na fé. Na arte. Quase nunca é fácil. O esforço é grande para manter acesa a chama da esperança.

Lembrei-me de uma música que, desde o título, é o texto que eu queria para este momento. Ela se chama “Oração” e eu destaco seus primeiros versos:

Peço aos céus para me proteger
E eu não hei de ceder
Ao vazio desses dias iguais
Mal em mim nunca há de fincar
Mel em mim nunca há de findar
Olhos nus e atentos aos sinais
Faço fé para poder ver
A vida há de ser sempre mais
Peço aos céus para me defender
De engolir o sofrer
Contato vir a ter jamais
Com o invisível que paira no ar
Dos que querem ver sangrar
Ilumine, e que sigam em paz
Faço fé pra poder ver
A vida há de ser sempre mais
Se acaso a peste
A tempestade trouxer
Que ao se aproximar de mim, suma
Que no seu lugar
Nunca demore a brotar
A celeste semente do amor
Envolto por espirais
Num manto de azul-lilás
Conserve meus bens vitais e calor
Cuide para crescer
E enfim florescer a flor de cristal
Sobre nossos quintais


(Oração, composição de Dani Black)

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Saberes e sabores



 Saberes e sabores 


Na minha infância, sempre estive por perto das vivências culinárias da minha casa. Desde ir à feira e experimentar as cores, cheiros e sons daquele ambiente; passando pela companhia na produção de bolos, saladas de frutas e cocadas dos finais de semana, com participação de pai e mãe. 
Adolescente, assumi minhas tarefas domésticas e havia os momentos das compras e os do fogão. 
Quando fui morar sozinha, o forno micro-ondas foi meu parceiro de aventuras gastronômicas. Comecei a fazer meu caderno de receitas e a curtir preparar os pratos pra receber o namorado e os amigos. 
Casada, encarei o fogão. Testei receitas e aprendi a dar atenção à arrumação da mesa. Delícias não somente para o paladar, mas também para a audição e a visão. 
Com os filhos pequenos, quis reproduzir minhas lembranças de infância. Como foi bom! Uma pequena bagunça e muita conversa e aprendizado em tardes de finais de semana encantados. 

Hoje, e já há algum tempo, a culinária vem tomando um espaço de escrita na minha vida. Tem leitura: das receitas, das combinações de ingredientes, dos tempos, das cores, dos cheiros, das texturas. Tem produção: de gostos, de imagens, de textos servidos com amor e toda minha expressão e criatividade. 

Os livros estão presentes, como estava aquela linda coleção que ficava na estante da minha mãe e que eu adorava folhear. Estou na fase Rita Lobo, conhecendo seus canais de divulgação e, claro, lendo suas obras que são um convite à reflexão, com inteligência e beleza. 

Nas férias, comecei uma pequena hortinha de temperos na jardineira da minha cozinha. Mais um passo nesse universo de sabores e saberes. 

É o cozinhar de todo dia - que cansa às vezes. Mas até mesmo essa rotina vai ganhando outros ares menos enfadonhos. Em algumas momentos, ter de ir pra cozinha significa um tempo para realizar tarefas completamente diferentes dos meus afazeres profissionais. E isso me acalma. E, de algum modo, me inspira,  com os pensamentos em ebulição que vão, aos poucos, se arrumando. 
E é o cozinhar-presente. O texto que ponho à mesa a familiares e amigos como uma parte de mim. 
Tem sido muito bom!

sexta-feira, 24 de julho de 2020

A utopia das janelas

O Clube de Leitura Vivências, que coordeno em Nova Friburgo/RJ, realizou uma atividade de escrita a partir de fotos.
Este é um dos meus textos na publicação, a partir da foto em anexo.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Uma prece na janela

O Clube de Leitura Vivências, que coordeno em Nova Friburgo/RJ, realizou uma atividade de escrita a partir de fotos.
Este é um dos meus textos na publicação, a partir da foto em anexo.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Participação no Programa Diálogo com Hamilton Werneck, em novembro de 2018

Primeiro bloco de quatro em que foi dividida a minha participação no Programa Diálogo com Hamilton Werneck, sobre questões étnico-raciais.

Participação no Programa Diálogo com Hamilton Werneck

Café Literário premiado

Em 2018, o Café Literário recebeu o Prêmio Ricardo Oiticica de Práticas Leitoras do Instituto Interdisciplinar de Leitura (iiLER) da Cátedra de Leitura da PUC-Rio, na categoria Mediação de Leitura.
A premiação teve um belíssimo encontro entre os premiados, escritores, leitores, professores e pessoas interessadas.


Foi uma noite muito especial!Café Literário recebe prêmio

Clica e Descomplica visita o Café Literário

Em Maio de 2018, duas colegas minhas de trabalho visitaram o Café Literário e o levaram para um trabalho que realizavam na época - o "Clica e Descomplica".

Foi muito gratificante ter a presença de Adriana Araújo e Luciana Estevão!

Clica e Descomplica visita o Café Literário

Sou alfabetizadora

Em 2017, gravei uma entrevista sobre minha experiência de alfabetizadora, função que exerci de 1992 a 2001, no Educandário Miosótis. Antes e depois disso, fui alfabetizadora em outros espaços e circunstâncias.
Hoje, me reconheço como professora-alfabetizadora para muito além das classes de alfabetização; envolver o sujeito no mundo da escrita é, para mim, um prazer e uma vocação e isso se revela na minha trajetória profissional e pessoal.

Tenho uma história para contar: sou alfabetizadora

terça-feira, 30 de junho de 2020

Café Literário - para degustar

Em janeiro de 2017, o cineasta Luciano Santos criou este vídeo para demonstrar um pouco do que é o Café Literário. 
Para quem não conhece, fica uma degustação.
Para quem é participante, uma breve recordação.

*No período da Pandemia da Covid19, o Café Literário esteve com suas atividades suspensas em virtude do necessário distanciamento social.

Café Literário - 1a publicação

segunda-feira, 29 de junho de 2020

domingo, 30 de junho de 2019

20 anos de formada em 2017




No dia 11 de dezembro de 1997, aconteceu a formatura da minha turma do curso de Pedagogia, da Faculdade de Filosofia Santa Doroteia. 
Foi uma noite belíssima!... Estávamos felizes e com uma deliciosa sensação de vitória. 
Eu, de uma família com muitos tios e primos, era uma das poucas a alcançar um diploma de graduação universitária. Sim, era uma vitória! 
Eu, professora, formada no Curso Normal em 1990, assumi meu primeiro emprego em fevereiro de 1991, com muita garra e alegria. E não imaginei (nem planejei) ingressar na faculdade... Sim, era a vitória!
Durante os quatro anos de curso, eu trabalhava dois turnos, pois precisava pagar minha faculdade. Não comprei livros - muito caros pra mim naquela época-, mas devorei o que pude da biblioteca da FFSD. 
Estudei muito. Aprendi muito. E colho até hoje as sementes de aprendizado plantadas naqueles anos. 
Foi uma vivência lindíssima!... O lugar (lembro do cheiro das flores do jardim da faculdade, nas noites de primavera, já perto do final do ano letivo); as pessoas (quanto afeto desde a portaria, passando pela xerox, pela cantina, chegando à secretaria, emanando dos abraços e cumprimentos da Irmã Celma e da Irmã Cosmelli; os docentes - que fonte inesgotável de saber; minhas colegas - quantos risos, quantas partilhas...


Um presente pra vida toda!... 


domingo, 18 de fevereiro de 2018

Sobre voos e raízes


Como saber a hora de deixar o filho sair de perto de nós? 
Como avaliar se o que ensinamos ajudará de fato ou se ainda falta muito para aquele voo solo? Eu sei... achamos que sempre falta. Sempre temos algo que ainda não ensinamos... Mas assim é a vida, não é? Aprende-se enquanto se vive. 
Eu disse voo solo? Voo em dupla, em trio, em grupo... Solo apenas porque é sem os pais, separado da família, distanciando-se desse fundamental primeiro núcleo. E cujo corte amedronta mais aos familiares do que aos próprios filhos - ao menos na ordem natural das coisas. 
Como confiar nesses que vão entrando no nosso lugar, ocupando também espaços que até há pouco não existiam? 
A hora de o filho sair do colo é fácil de decidir. É ansiada por todos. É coroação pra pais e filhos - está crescendo! (Significa: vc está alimentando bem essa criança, estimulou adequadamente e agora vê-se o quanto ela é madura - como é firme e anda bem!). 
Quantos passos desde a hora dos primeiros até o momento em que, com passos largos (meu Deus! Como cresceram! Olha o tamanho desses pés!...), as distâncias geográficas aumentam? 
Então, emoções controladas pra razão conseguir chegar, lembramos que houve muitas separações, em pequenos e grandes momentos. 
Que nem sempre estávamos perto na hora de uma dor (física ou emocional) ou de uma tristeza, porque somos humanos e não temos superpoderes. 
Que não prevemos tudo e não controlamos nada. 
Que viver exige disposição e coragem. Que aceitar os voos é reconhecer isso. Que pode haver erros e que existe possibilidade de acerto e correção na trajetória. 
Que, mesmo no mais alto céu ou diante da mais deslumbrante paisagem, se há raízes, elas servirão para o retorno. 

E o reencontro - como todo novo encontro - será marcado por muitas histórias que ficarão nas memórias dessa família (re)construída a cada dia, pelos voos solos de cada um de seus membros. 

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

De Francisco Gregório sobre o Café Literário


Comecei a realizar um Café Literário em Nova Friburgo, em setembro de 2012.
Meses depois, tive a surpresa, a honra e a alegria de ler este texto de Francisco Gregório, a partir de uma conversa que tivemos por e-mail.
A foto é de 2016, quando ele foi me visitar!
Espaço de Leitura - Era uma vez. E fim
clara.pc@ig.com.br chico.greg@yahoo.com.br
SEXTA-FEIRA, 05 DE ABRIL DE 2013
POR JORNAL A VOZ DA SERRA
Francisco Gregório Filho

Comentei aqui já por mais de uma vez a minha alegria e o grande prazer que toma conta de mim quando estou a ler e a escrever. Também sublinhei, aos amigos leitores desta coluna, as minhas dificuldades em escrever. Não é coisa fácil ter em mãos caneta ou lápis e preencher uma página em branco. Sei que posso melhorar e uma das maneiras, que todos nós sabemos, é o exercício constante da leitura e da escrita. Por isso ainda procuro participar de encontros, seminários, oficinas e rodas de leitura, sempre pedindo orientação aos mestres. Por ora não tenho outra saída.
Soube por uma amiga notícias de uma oficina que acontece na Livraria Arabesco. Na verdade, são rodas de leituras que têm orientação da professora Márcia Lobosco. Imediatamente escrevi uma mensagem a ela, solicitando mais informações e dizendo de meu interesse em participar.
A professora Márcia com todos os cuidados e muita paciência logo me respondeu: 
“Olá, Gregório!
Sou professora e atuo em sala há mais de vinte anos. Minha primeira formação é em Pedagogia e, depois, cursei Letras na Faculdade de Filosofia Santa Doroteia.
Numa ocasião, quando cursava Literatura infanto-juvenil, com a professora Lúcia Raminelli, tive a oportunidade de participar de uma roda de leitura orientada por você. Adquiri, na época, um livro seu, especialmente por causa do texto do abraço. Já o usei em várias situações.
Sou amante das palavras, gosto de ler e escrever, e ter pessoas a volta de um livro, de uma história, me chamam a atenção e me emocionam. 
No ano passado, tomei coragem e coloquei no papel um projeto de Café Literário e Oficina da Palavra e fui solicitar o espaço do Café Árabe, na Livraria Arabesco. Nádia, felizmente, topou imediatamente e realizei três encontros mensais, de uma hora e meia de duração cada um, em setembro, outubro e novembro. Foi uma experiência maravilhosa!
Este ano, retomaremos o projeto e as novas datas já estão definidas....” 
Claro, amigos e fraternos leitores e leitoras, que o carinho na resposta da professora me comoveu. Estimulado, fiz-lhe nova pergunta sobre como esses encontros se desenvolvem e novamente recebo a resposta de uma forma que só os bons mestres comprometidos com a formação de leitores e (por que não?) escritores, sabem fazer: 
“Olá Gregório!
Em todos os encontros anteriores, levei um texto para ser lido na hora e abri para os comentários, a partir de uma provocação inicial. As pessoas, normalmente, falam bastante, vão trazendo suas leituras, suas experiências, conectando com outros textos. 
Depois, propus uma breve escrita, no formato que se desejasse, individual ou coletivo, que poderia ser lida para o grupo ao final. A participação foi intensa também! Todos costumam escrever e querem ler suas produções. Acima de tudo, é uma vivência de expressão de sentimentos e pensamentos. 
Bom, é isso! Escolho os textos que mexem com minhas emoções e que me inspiram a refletir. Sou professora de Português e de Filosofia e isso não se separa de mim... rsrsrs. Por outro lado, também sou pedagoga, e me preocupo com o como essas reflexões podem chegar às pessoas e também fazê-las refletir. Para você ter uma ideia, faço um planejamento do encontro, a exemplo de um plano de aula. Rsrsrs. Mas, para minha alegria, ninguém encara como aula, mas como um encontro. Fiquei muito feliz com a experiência vivida no passado. 
Depois dos comentários, sugeri que escrevessem sobre memórias de aprendizado da escrita. Houve memórias tristes (de um ensino mecanicista, por exemplo) e memórias muito bonitas. Todos, sem exceção, revelaram ter amor pela escrita, pela palavra...”
Márcia (http://diariodebordocefet.blogspot.com).
É um desafio para tentar melhorar minha escrita, mas vou em frente, a escrever, a ler e a publicar. Acabo de receber um livro* muito interessante com muitos desenhos de André Ducci e textos de Joca Reiners Terron. Abrindo a primeira página leio: “Era uma vez. E fim. Queria começar a história dessa maneira. Era uma vez. E fim. Mas não. Existem outras coisas entre esses dois extremos.” 

http://thevalueuwiluppse.com/noticias/espaco-de-leitura-era-uma-vez-e-fim

Pelo aniversário do Augusto, em 2017



Hoje meu dia amanhece cheio de alegria e gratidão pela vida do meu filho Augusto, meu caçula!... 
Há doze anos o dia 08 de dezembro é uma data cheia de marcas e emoções. A cada dia mais intensas!!!!
Todos os dias, aprendemos com Augusto a sermos mais gentis e atenciosos com os outros, a ler emoções expressas nos rostos e gestos, a enxergar o mundo com um outro olhar. 
Todos os dias, percebemos que ensinar sobre paciência e tolerância é exercício diário, do qual não podemos nos cansar, pois mesmo as pessoas mais doces tem seus momentos de fúria e incompreensão. 
Esse menino lindo e inteligente, que veio ao mundo antes da hora e que tem uma pressa enorme de viver, dá às nossas vidas outros sentidos... 
12 anos! Um pré-adolescente!...
A alegria do meu bebê segue contagiando a todos nesse sorriso simpático e agradável, num rosto onde agora começam a aparecer as primeiras espinhas. 
As tiradas rápidas e precisas, normalmente bem-humoradas, presentes desde quando ele era muito pequeno, seguem encantando e surpreendendo. Mas, às vezes, já chegam com uma crítica mais ácida. 
Inteligente, empático, sentimental, dramático... Ah, meu bebê foi assim, meu menino cresceu assim e, sem eu me dar conta, vejo um menino-rapaz intensamente assim. 
Que Deus me conceda sabedoria e discernimento pra continuar contribuindo para o crescimento saudável e feliz do meu filho. 
Que as suas boas características sejam potencializadas para o Bem de todos à sua volta. E que o que é preciso modificar seja aprendido nas vivências diárias com todo Amor. 

Feliz aniversário pro Augusto! 

Minha sala – a primeira no ano 2000


Escrevi esse texto muito emocionada, quando me dei conta de que iria usar uma sala em 2018 (de volta à função de coordenadora) que havia sido a minha primeira sala naquele prédio, no ano 2000. As fotos são da sala já arrumada, em janeiro de 2018.



Era outubro de 2000. Ano universalmente especial, de data tão emblemática. 
Para nós, do Educandário Miosótis, especial e emblemático por motivo celebrativo: a escola completava 10 anos de existência. 
O presente chegou, significativa e expressivamente: os administradores adquiriram uma propriedade nova para a escola funcionar. Ampla, arborizada, no Centro da cidade. Poderia haver melhor forma de comemorar? 
Preparamos a mudança de parte das turmas naquele mesmo ano, no último bimestre letivo. Por que a pressa? Porque não víamos a hora de desfrutar de toda a promessa daquele novo espaço. Levamos, então, o ensino fundamental, que, naquele ano, chegava completo, com todas as séries (1a a 8a, pela lei da época). 
Choveu no nosso primeiro dia de aula na Alameda. A rua tinha calçamento de pedras e era escorregadia. A quase totalidade do espaço era de chão de terra, que permaneceu enlameado por mais de uma semana, sob a chuva de primavera que caía intensa. Havia partes do terreno aonde os estudantes não podiam ir e precisávamos cuidar disso com atenção redobrada durante os horários fora de sala de aula. 
Mas foi lindo!... Eu olhava deslumbrada para tudo à volta e sei que contagiava o olhar dos meus alunos, crianças da classe de alfabetização que, assim como eu, enxergavam em cada pedacinho um futuro muito próximo, cheio de possibilidades. 
Durante os nove anos em que trabalhava na escola, estive em alguns tipos de salas e enfrentei as dificuldades de cada espaço. Meu primeiro passo foi sempre o de criar um vínculo de afeto com meus alunos para que pudéssemos confiar uns nos outros. 
Assim, tive uma turma de III Período no segundo andar, com a presença de um aluno de inclusão, e nunca houve ninguém rolando pelas escadas. Tive duas turmas de alfabetização numa sala no primeiro andar, onde só havíamos nós. E, fora as idas ao banheiro devidamente autorizadas, andávamos juntos, de um lugar ao outro, sem acidentes nem nenhum tipo de problema. 
Quando mudamos para a Rua Pastor Meyer (mais uma das conquistas do Educandário Miosótis), estive um ano numa sala com uma grande porta de vidro ao fundo e tudo transcorreu normalmente. Dois ou três anos estive numa sala no segundo andar, com a 5a série, e a experiência rica da sala de aula transcorreu em paz. 
E durante os outros anos lecionei numa sala de aula que fora a garagem da residência. Seu formato era desigual e o espaço ia diminuindo para o fundo da sala, afunilando. Não era o local ideal, tanto que nunca mais houve uma sala assim na escola. Ali, trabalhava nos dois turnos, com turmas de 4a a 8a série pela manhã e a classe de alfabetização à tarde. E afirmo, sem medo de ser hipócrita nem piegas, que éramos felizes ali. Aprendíamos, sobre as letras, as palavras, os textos, a língua e também sobre muitas outra coisas. Cantávamos, ríamos e brincávamos também. E sei que essas memórias fazem parte de mim tanto quanto de cada um dos alunos com quem convivi diariamente. 
Na Alameda, a primeira sala de aula em que trabalhei, é onde fica hoje à sala da coordenação. É a sala que usarei em 2018, quando assumo novo desafio. Se na vida concreta pode ser apenas uma coincidência, na leitura simbólica da vida, o fato ressoa/ecoa e chega pra mim como um rito de passagem. A professora que chegou àquela sala no ano 2000 permanece. Seu olhar deslumbrado diante da beleza ao redor (ainda mais bela hoje) procura contagiar os que estão à sua volta. Ensinar continua sendo sua vocação e, para tal, ela não cansa de estudar e de aprender. E o que aprendeu, sempre trouxe para essa escola. E nessa escola sempre aprendeu muito e levou para si. E nesse vai e vem de aprendizados, a menina-mulher é a mulher-menina que se constrói a cada dia. 
Essa sou eu. E saber que vou olhar novamente pela janela daquela sala, me causa grande emoção. É o mesmo olhar, pra enxergar outras coisas. E vai ser lindo, eu creio! 

Sobre filhos terem interesses diferentes dos interesses dos pais - sobre serem filhos e serem pessoas





Meu filho Miguel rejeita o meu trabalho com a leitura como eu rejeitava o trabalho com costura da minha mãe. 
Mas não vejo como desrespeito. Percebo certa admiração, assim como ocorria (e ocorre) comigo quando vejo as costuras da minha mãe (das quais não entendo nada...). É uma questão de inabilidade ou de não afinidade. 
A despeito disso, reconheço nos olhos do meu filho o interesse pela minha produção. Curiosidade ao me enxergar dedicada. 
Talvez, pra entender um pouco sobre o interesse provocado em mim. 
Possivelmente, de modo inconsciente, pra descobrir sobre mim e, nessa compreensão, entender também a si mesmo. 
No seu olhar diante dos meus afazeres literários, nas suas perguntas pertinentes e curiosas, enxergo afeto. E isso me toca (me afeta), pois consigo enxergá-lo melhor e, de algum modo, revejo a mim mesma.

Prefácio do livro "Nova Friburgo - contos, crônicas e declarações de amor"


Prefácio 

 "Jardins Suspensos" na serra
dentro da Serra do Mar,
é o céu mais perto da terra
que a gente pode encontrar...

Na palma da mão de Deus
fica Friburgo-a cidade
a quem ninguém diz adeus...
(Ao partir, se diz:saudade...)

(J G de Araujo Jorge)

Nova Friburgo está prestes a comemorar seu aniversário de 200 anos. Em 1818, o rei de Portugal, residindo no Rio de Janeiro decidiu, por decreto, criar uma localidade na serra fluminense para receber um grupo de colonos vindos da Suíça. 
A partir desse fato, tradicionalmente começa a se contar a história da cidade de Nova Friburgo. 
Inspirado por essa data comemorativa e a exemplo de iniciativas literárias semelhantes em outras cidades, o escritor George dos Santos Pacheco teve a ideia de reunir amigos escritores que desejassem exercitar seus talentos e escrever textos diversos em que a cidade fosse, de algum modo, o foco. Daí nasceu o livro "Nova Friburgo - contos, crônicas e declarações de amor", apresentado com uma bela capa de criação artística dos também escritores Carlos Abbud e Flavia Gonçalves. 

Nesta obra, os leitores encontrarão 
Alberto Lima Abib Wermelinger Monnerat que abre o livro, contando, em forma de relato, a vinda dos colonos suíços para Nova Friburgo, de acordo com o que a historiografia registrou; seu interesse é genuíno - ele mesmo descende de um desses colonos. 
Ana Beatriz Manier nos brinda com um conto ambientado na sala de aula do colégio "mais tradicional da Fribourg brasileira, como meu professor de francês faz questão de dizer". Fica a cargo da imaginação do leitor (ou do seu conhecimento) descobrir qual é, bem como se identificar com a narradora-personagem nas suas contradições adolescentes. 
Ania Kítylla traz um conto de suspense com pitadas de erotismo, cujo enredo se desenrola num bar em Nova Friburgo. Amor? Paixão? Traição? Esses e outros ingredientes vão preencher a imaginação do leitor. 
Anna Braga Asth nos relembra à noite da tragédia climática, em janeiro de 2011 que assolou a região serrana do estado do Rio e atingiu Nova Friburgo dramaticamente;  em sua crônica, a autora propõe uma reflexão de fé. 
Carlos Abbud nos traz um conto com gosto de melancolia quando nos reencontramos em pleno presente com um passado que, há muito distante, não pode retornar. Presente e passado na mesma Nova Friburgo; presente que segue e deixa o passado - outra vez - passar. 
Flávia Gonçalves trata de dúvidas e coragem no conto que faz referência a uma escola e a um shopping em Nova Friburgo. Sua história mostra uma personagem com medo de enfrentar seus próprios desejos e o seu encontro, ao acaso, com o incentivo que a encoraja. 
George dos Santos Pacheco surpreende com um conto que passeia entre o suspense e o terror, numa bela casa que se revela mal-assombrada no pacato distrito de Lumiar. O coração vai dá tranquilidade ao sobressalto em poucos parágrafos. 
Ordilei Alves pinta o livro com cores quentes apresentando um conto erótico cujos personagens - uma jovem e um homem maduro - reagem aos estímulos sensoriais numa narrativa excitante. 
Pela narrativa de Roberio Canto, podemos passar por vários locais de Friburgo enquanto a personagem, em fúria após uma briga com o namorado, trafega com seu carro de Furnas ao Cascatinha. Durante o trajeto, o narrador vai nos revelando os dramáticos sentimentos da personagem, numa intensidade que vai acompanhando o caminho trilhado. 
Solano DellaMuerte nos relembra o calcanhar de Aquiles de Nova Friburgo: os temporais que causam as cheias dos rios e os transbordamentos pelas ruas que, muitas vezes, além dos estragos materiais ceifam vidas. A narrativa é sobre os que ficam e o que fazem com os que se vão. 
A crônica de Tereza Cristina Malcher Campitelli é de grande beleza, retratando um local de Nova Friburgo cheio de verde, flores e cães - todos muito bem apresentados no texto, assim como os relatos com toques de doce nostalgia. 
Por fim, Thales Amaral nos lembra do mercado de flores de Nova Friburgo e as coloca de modo significativo no seu trágico conto de amor. 

Os nascidos e moradores de Nova Friburgo certamente reconhecerão os locais citados e terão sua própria memória afetiva estimulada, trazendo lembranças de momentos passados nesses lugares e ambientes. 
Aos que tiveram em mãos este livro e não tiverem ainda conhecido Nova Friburgo, talvez a leitura aguce sua curiosidade. 
Na cidade de tradição literária, onde renomados autores estiveram em momentos distintos e experimentaram escrever sob o agradável clima das montanhas; na cidade que anualmente recebe trovadores de todo o Brasil que expressam em versos seus sentimentos e divagações - nesta cidade, não poderia deixar de nascer uma obra que reunisse, em diferentes gêneros, escritores de várias idades para prestarem sua homenagem a Nova Friburgo. 
Que os leitores encontrem-se nas páginas deste livro, ao reconhecerem lugares, se identificarem com personagens e narradores e desfrutarem de uma leitura diversa em temas e enredos. 
Ganham os escritores; ganham os leitores - ganha Nova Friburgo, terra de todos nós.