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domingo, 2 de novembro de 2014

Minhas origens

“Minha jangada vai sair pro mar
Vou trabalhar, meu bem querer
Se Deus quiser quando eu voltar do mar
Um peixe bom eu vou trazer
Meus companheiros também vão voltar
E a Deus do céu vamos agradecer”

(Suíte do Pescador, Dorival Caymmi)

Há alguns anos, assisti a uma palestra de Amyr Klink no Festival de Inverno do Sesc. O palestrante, famoso por suas aventuras solitárias no mar, viajando longas distâncias, disse – entre outras coisas muitíssimo interessantes, ao relatar suas viagens e vivências – que a jangada é uma embarcação genuinamente brasileira, de uma tecnologia incrível.
O casco, confeccionado com madeira natural da região nordestina, é insubmersível; as velas são totalmente adaptadas ao regime de ventos constantes do nordeste brasileiro; os furos de vela permitem a regulagem fina do ângulo do mastro com o rumo desejado. Trata-se de embarcação totalmente adaptada ao seu meio.
O fundo resistente e plano é ideal para vencer as barreiras de recifes e as chegadas diárias nas praias. A manutenção e os consertos que a embarcação requer são procedimentos com técnicas simples. É barco barato, fácil de construir, manter e consertar.
Tive a oportunidade de ir ao Nordeste pela primeira vez em julho de 2013. Por tudo o que dizem a respeito do litoral nordestino e pela propaganda que me fizeram do lugar – Porto de Galinhas, em Pernambuco -, eu tinha certeza de que seria uma delícia. Além, é claro, da possibilidade de dias de calor, o que muito me agrada.
Mas foi muito mais do que isso. Claro que o encontro familiar foi prazeroso, o ambiente, agradável, e o descanso aconteceu, de fato.
O que me motiva a escrever, porém, é a questão do lugar. Na verdade, não é apenas uma motivação, mas a necessidade de colocar em palavras o turbilhão de emoções que tomou conta de mim poucas horas depois que cheguei àquela região. É como se tudo me (re)lembrasse uma origem, que é muito mais presente e marcante do que eu mesma tinha consciência.
As cores são mais alegres, como é mais alegre o povo e a música. É claro que estávamos num belo hotel e só conhecemos destinos turísticos. As mazelas, os sofrimentos, as agruras da vida não apareceram aos nossos olhos. Mas elas existem em todo lugar e até mesmo aqui, na minha cidade, não as enxergo todo dia... Contudo, elas existem.
Não estou falando de uma aparência que cativou meus olhos e me causou deslumbramento. Estou falando de essência, de algo que não conhecia e que, paradoxalmente, vivi durante toda minha vida e faz parte das minhas entranhas. O sol, as peles morenas, o sotaque cantado, o vocabulário regional, a energia – tenho isso em mim, no meu corpo e na minha alma.
Comecei a me dar conta disso, mais conscientemente, na noite do primeiro dia, quando, no restaurante, li “feijão macassa”. Aquele que eu adoro e que mamãe chama exatamente assim! Parece uma bobagem, mas foi altamente significativo. E daí não parou mais: a tapioca no café da manhã, o cuscuz no cardápio do restaurante, as cocadas na praia.
A cada passeio, as cores, o som das vozes e das canções, a aparência das pessoas do lugar faziam com que eu me sentisse como se fosse um deles... Como acho que nunca me senti em Nova Friburgo...
Em 2012, por conta dos estudos relativos ao centenário de nascimento de Luiz Gonzaga, eu já começara a sentir algo assim, quando conheci melhor as letras desse artista, ouvi com mais atenção suas músicas e li sobre sua vida. Naquele momento, todavia, ainda não estava claro para mim do que se tratava. Com a viagem, as sensações e sentimentos foram ganhando forma.
Acabamos de viver eleições presidenciais e os votos dos estados da região Nordeste foram expressivos para a vitória da presidenta Dilma, em sua reeleição. E, ao se tornar conhecido o resultado do pleito, se iniciaram os discursos de ódio e discriminação contra os nordestinos. Uma lástima!
Lembrei-me de quando eu era criança e adolescente e estudava, nos bancos escolares, sobre essa região do Brasil, sempre com um olhar etnocêntrico partindo do sul/sudeste. Como se houvesse dois brasis. Como se as condições sociais e econômicas tornasse as pessoas inferiores umas às outras em seu valor humano.
Também nesse período da minha vida, recordo-me de assistir atitudes de preconceito contra meus pais. Sutilmente, é claro. O brasileiro não é um povo cordial? O preconceito é, então, velado. É um risinho ao ouvir o sotaque e reconhecê-lo originalmente nordestino. É a ideia pronta de que as pessoas saíram de sua terra em condições precárias. E – pior – que elas estão ocupando um lugar que não é o seu. Tudo isso sempre reforçado por uma mídia televisiva que aposta o sucesso de seus programas nos estereótipos e caricaturas.
Ao longo do tempo, com uma exigência social de uma postura politicamente correta parecia que esse preconceito havia se dissipado. Junte-se a isso, as mudanças econômico-sociais significativas ocorridas nos últimos doze anos na região Nordeste.
Mas, não. O preconceito continua entranhado. E os discursos discriminatórios estavam prontos para serem proferidos tão logo os do sul se sentissem “ameaçados”, “prejudicados” pelos do norte.
Pois bem: tudo isso que tenho ouvido na última semana me fizeram orgulhar-me ainda mais de ter origens nordestinas. Já escrevi num outro texto o quanto reconheço determinadas características no povo nascido naquelas terras (“Sobre essência, mudança e esperança”), a julgar pelas pessoas da minha família – tios, tias, primos, primas e, em primeiro lugar, no meu pai e na minha mãe. Trata-se de uma busca por liberdade num profundo “não” a ser tutelado por outro; de um esforço por ter uma vida digna e confortável numa constante procura pelo melhor lugar; de uma garra pela vida numa significativa luta para se manter de pé e não ser perder dos seus.

Sei que cometo equívocos conceituais – do ponto de vista intelectual – ao tentar caracterizar um povo, partindo de uma análise empírica – e afetiva! . Mas, permito-me, já que não estou escrevendo uma tese, mas apenas colocando em palavras minhas sensações, percepções, sentimentos e pensamentos a respeito disso que me é tão caro (e que descubro ser mais e mais, conforme o tempo – o meu tempo – passa...): a necessidade de entender minhas origens. E elas estão lá, longe de mim geograficamente, e tão perto, pois estão mesmo dentro de mim.

2 comentários:

  1. Parabéns pelo texto Márcia!
    Você esteve numa bela parte do Nordeste, dessas que são visitadas com frequência principalmente por pessoas do sul e Sudeste. É natural que se sinta a vontade, tem referencias muito forte de seus pais. Quando discriminam o nordeste se baseiam na seca, na fome, na miséria, como você sabe, isso se faz presente em todas as regiões. Esses verdadeiros paraísos do nordeste estão sendo cada vez mais aglomerados por pessoas de outras regiões e até países, pelo sol, pelas cores, pelas festas. Quando visitar a Paraíba, Caiçara, Sítio Braga, vai sentir cheiro de casa, de terra, de pedacinhos da vida e vai lembrar que foi embora exatamente como Fabiano (personagem de Vidas secas) se foi, fugindo da seca... Beijo carinhoso, farei com carinho esse percurso com você, entre outros.

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  2. Olá Márcia, como disse antes, eu não tenho origens nordestinas. Mas como eu queria ter...rsrs. O Ricardo (meu marido) tem. Seu avô era nordestino e veio parar em Friburgo porque era marinheiro. Nunca mais conseguiu voltar para lá. Ele formou família aqui e criou uma associação cultural aqui em NF. A associação cultural dos Andradas ainda existe até hj em Olaria. Lá tem forró, quadrilha, mineiro pau, folia de reis. Então eu sinto essas origens no Ricardo, através da paixão que ele carrega por tudo que seu avô o ensinou. O avô dele é falecido, mas ainda tem família lá no nordeste, a qual só temos contato pelo facebook. Mas um dia, se Deus quiser, iremos conhecer essas terras nordestinas, tão belas, tão ricas, tão quentes, tão brasileiras. E o preconceito...sinceramente não consigo nem comentar, pq foi realmente uma situação muito feia. Vi algumas postagens no face que me causaram vergonha alheia. Enfim...infelizmente no Brasil ainda existe muito preconceito e racismo escondidos e isso veio à tona nessas eleições.

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